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Os 5 últimos dias

{Para ouvir enquanto lê}

Na quinta, agarrei metade do meu cabelo, medi uns centímetros pra cá e outros pra lá e cortei. Balancei ele de um lado pro outro e deixei minha melhor tesoura, a vermelha, em cima da pia do banheiro.

Na sexta, acordei mais cedo que minha irmã e corri pela rua. Sozinha. No frio. Meus passos ressoavam até a esquina, meus fones vibravam nos ouvidos. Tuc. Tuc. Tuc. Uma. Duas. Sete esquinas de uma vez. Parei. Respirei e voltei andando pelo bairro que começava a se agitar.

No sábado, eu abri a janela do uber, o vento batia contra mim.

– Moça, você quer ouvir alguma coisa?

David Dunn saia do autofalante do carro que cheirava a sauna. Obrigado, universo, pelo bluetooth.

E nós cruzamos a cidade com a mesma música se repetindo e minha mão para fora do uber, controlando o vento da cidade.

– Você tá tão feliz, moça, aconteceu alguma coisa?

– Não. – Sorri.

No domingo, eu sentei com as crianças do ministério infantil e elas me perguntaram se Deus ainda multiplica peixes nas redes. Sorri de novo. Nós somos os peixes e as redes. Nós somos as mãos dos discípulos. Nós somos Cristos em formação.

– Você não faz ideia de como ele multiplica, Mateus… – Ele correu satisfeito com a resposta.

Na segunda, fiquei observando meu avô ler o jornal e minha avó ligar para ver se alguém estava melhor de saúde, enquanto eu fazia almoço para os dois. Mexendo o feijão e olhando os meus velhinhos, existindo há anos no espaço um do outro.

– Você não vai acreditar em quem foi preso! – Ele balançou o jornal, minha avó tentava desligar o celular e eu experimentava o feijão, que estava sem sal. – A irmã tá melhor, Ivone?

Nada mudou por fora. Tudo ainda está igual. A vida ainda está cheia de incertezas e problemas. A alegria que me alimenta é estranha e me chama para uma nova fase Nele. Eu nutro a esperança de comer de algo alegre e fresco. Não porque sou otimista com o futuro das coisas e deste mundo, que se mantém unido pelo ódio, mas espero porque Gálatas diz que se não nos cansarmos de fazer o bem, um dia colheremos todo ele. Essa semana foi como uma lembrança que veio sem avisar de que a esperança do bem está chegando. Eu e minha nuca quase de fora continuaremos a semear.

 “E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido”

Gálatas 6:9



Esquema de sempre: você pode me encontrar através do meu email (nataniacarvalho@gmail.com), da página do blog no Facebook, ou do meu Instagram =D
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Um post dentro do outro (ou: Sem medo do nariz escorrendo)

Este texto NÃO faz parte do tema do mês de Janeiro, que atenção: vai durar mais alguns dias de fevereiro, pois temos mais posts agendados. Mas não é novidade neste blog que o novo mês “comece” no dia 05 (risos). Se você quer ler os textos de janeiro, clique aqui, aqui, aqui e aqui.


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{Para ouvir enquanto lê}

Uma semana virada do cão, como diria uma amiga.

Aquela que você olha para si e não acredita em nenhuma decisão que já tomou na vida. Desde escolher a cor da sua lancheira no pré, até o que você agendou para o dia. Nada parece certo.

– O que eu estou fazendo, Deus?… – O pensamento corrói meu interior como um vírus novo que vai transformar todo o mundo em zumbis com cabeças que se abrem em uma espécie de flor carnívora nojenta e pegajosa (beijos, Umbrella Corporation).

Eu cancelo os planos de atualizar o blog na semana.

– Não posso fazer isso quando estou virada do cão, Deus. – Eu digo mais para mim do que para Ele.

E aí, eu penso no tipo ralo de confiança que tenho tido em Deus durante a semana. Pensando em quantas vezes imagino que não conseguirei terminar minhas atividades planejadas e escritas na agenda para a parte da manhã, pensando em tudo o que eu planejei para mim há 15 anos.

– A vida é assim com todo mundo, não se ter o esperado não é privilégio meu. – Eu penso, esperando o porteiro do meu trabalho, um senhor simpático e de sorriso aberto, abrir o portão.

Eu marco para almoçar com uma amiga e acabo segurando o peito entre uma mordida e outra, pensando em fantasmas dos passados e futuros já planejados. Sacudo a cabeça e como outro pedaço. O frango já estava frio.

– Você não confia em mim? – Eu O ouço.

– Agora não, Deus…

Eu, audaciosamente, falo, como se fosse possível dar um passo sem que Ele permitisse. Eu peço para que Ele espere, porque imagino, erroneamente, como toda essa conversa é chata demais para alguém tão grande. Corto outro pedaço do frango. Eu penso na quantidade de pessoas que se sentem miseráveis no exato momento em que levo a carne até a boca. Na quantidade de pessoas que imaginam se um dia tudo fica melhor. Na quantidade de pessoas que sentem que desapontaram metade do mundo. Na quantidade de tristeza. Eu engulo tudo, assim como engulo a comida. Pego a conta, abro a carteira, tiro o cartão, passo, e o homem do caixa sorri:

– Obrigado. – Ele diz e eu sorrio de volta, imaginando o que ele está pensando agora.

Ele não sabe, mas eu, enquanto dizia “obrigado você” e procurava seu nome no crachá para completar a frase, pensava em como queria dormir doze anos seguidos.

Saindo do restaurante, eu olho para as pessoas e olho para mim e para as pessoas. Eu abro o meus ouvidos para Deus, eu sei que Ele está ali, agora em silêncio, eu sei que a maioria de nós está na terra em silêncio. Girando. Orbitando. Fazendo planos. Morrendo.

E eu sei que deveria escrever um post nesta semana. Mas digo não.

Esta semana não. Eu vou voltar para casa depois do trabalho, cantar no banho, adorar, chamar pelo Senhor, ler a Bíblia, me manter aberta para as coisas e aí sim, escrever um post.

Todavia, eu sabia que Ele já estava ali. Como chamar alguém que já está na sala?

– Oi. – Ele diz com sua voz doce e forte. Meus olhos se enchem de água e meus pulmões de ar, como se um tornado houvesse me invadido com uma cachoeira de chocolate quente.

Não tão imediatamente, eu escrevo o texto abaixo (um post dentro do outro, é isso):

Eu não tenho que temer o nariz escorrendo

Eu sinto medo de falar sobre você em semanas em que estou virada do cão. Porque eu acho incrivelmente difícil pregar quietude quando eu nem sei se meu barco vai parar de girar. Mas isso é bobeira, Deus, porque o fato de eu não estar usando a âncora, não significa que ela não exista. Você é real. Você existe. Você é minha âncora, e eu decido finca-la na areia. Agora.

Eu decido não ter medo de pregar o verdadeiro evangelho, aquele que nunca esconderá que este mundo não é, e nunca será, sobre minhas realizações. Eu estou satisfeita em ti. Eu não estou satisfeita em ti quando estou satisfeita com o resto da minha vida. Eu estou satisfeita em ti e ponto.

– Davi não tinha medo de chorar e levantar com o nariz escorrendo desde que fosse comigo. – Ele explica.

As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, enquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus?

Quando me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma; pois eu havia ido com a multidão. Fui com eles à casa de Deus, com voz de alegria e louvor, com a multidão que festejava.

 Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei pela salvação da sua face.

Ó meu Deus, dentro de mim a minha alma está abatida; por isso lembro-me de ti desde a terra do Jordão, e desde os hermonitas, desde o pequeno monte.

Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado sobre mim.

 Contudo o Senhor mandará a sua misericórdia de dia, e de noite a sua canção estará comigo, uma oração ao Deus da minha vida.

 Direi a Deus, minha rocha: Por que te esqueceste de mim? Por que ando lamentando por causa da opressão do inimigo?

Com ferida mortal em meus ossos me afrontam os meus adversários, quando todo dia me dizem: Onde está o teu Deus?

 Salmos 42: 3-10

Davi e seu coração de cinco milhões de GB…

Eu não quero temer. Eu não quero que os outros temam.

Eu quero pregar que se você não está no seu melhor dia e não tem uma selfie com um versículo maravilhoso para postar nas suas redes sociais: ESTÁ TUDO BEM. Pra mim, o evangelho é, também, sobre deixar que nossas dores revelem a glória de Deus, porque, no final, penso que o evangelho é saber que tudo o que nós temos é você, Deus. Nos dias bons e nos dias em que tudo é aquele velho meme “queria estar morta“. Deus, tudo o que nós temos é você. E isso assusta minha geração acostumada a descansar seus planos em uma ideia de felicidade constante, em uma fórmula de prazer absoluto, em uma igreja de atividades.

No entanto, Deus, me ensine a ser como Jesus. Que o que eu penso ou sinto não seja maior do que minha vontade de saber como os outros se sentem. Que não importe como eu quero dormir doze anos, mas que importe mais como o moço do caixa daquele restaurante se sente. A minha vida não é sobre mim, mas é sobre o Senhor e sobre o que Jesus pregava: é melhor servir do que ser servido. Quando meu coração estiver me traindo, que eu me preocupe com o coração do meu próximo. Quando minhas realizações e a falta delas estiverem me incomodando, que eu ajude alguém a realizar seu sonho. Quando eu não encontrar alegria em minha rotina, que eu grite a Bíblia, com o peito aberto, declarando que a alegria do Senhor é a minha força. Quando eu não quiser escrever um post, algo tão simples e que eu amo fazer, que eu escreva dois, um post dentro do outro.

Eu estou satisfeita em ti.

“Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face, e o meu Deus.”

Salmos 42:11