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Já dizia Fernando Pessoa: “O mar é a religião da natureza”

{Para ouvir enquanto lê}

Sempre tive uma coisa com o mar.

Talvez seja por que nado tão bem quanto tia-avó e tudo que é maior que a gente encanta tanto que hipnotiza, para o bem ou para o mal. Tenho uma lista de músicas sobre o mar, tenho Camelo gritando na minha cabeça “Nos mares por onde andei, devagar dedicou-se mais o acaso a se escondeeeeeer”, tenho melodias do Sigur Rós que batem dentro de mim como ondas.

Talvez o mar seja o bonito e o feio de mim. Calmaria, dia limpo, vento que bate na vela, água que afoga e mata.

Para mim, todo mundo que se preze é o mar. Jesus era o mar. Não que ele tenha algum pedacinho feio sequer, mas Ele era Ele e o mar não engana ninguém. Não há coisa mais chata do que gente que ilude. O mar não finge temperança em dia de tempestade. Ele é para gente que cresceu, pirata bom é pirata velho.

Quando estou na presença do Espírito preciso ser o Atlântico: correr para Ele sem voz impostada, sem coração cheio de couraça. Se algo não está bem, eu digo. Se estou me sentindo ótima, que bom!  E aí, quando sou exatamente o que sou – sal na boca, ardor nos olhos -, Jesus pode ser quem é comigo.

Podemos gritar, chorar, rir e ficar no canto de casa em silêncio sem medo de nada. Como um oceano menor, me curvo em sua direção, ignorando toda a maré de minhas vontades.

O ministério de Jesus esteve ensopado de água e verdade. Então, eu prendo a respiração e mergulho, expondo quem eu sou, rindo da ideia de algumas pessoas de serem sempre bonança. Há algo em mim que vai ser sempre dilúvio, algo que vai se parecer sempre com a tempestade pintada por William Turner, mas não há medo em minha alma, já diria outra música “se as águas do mar da vida, quiserem te afogar…”.

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PS: a frase de Pessoa que está no título foi encontrada rabiscada num pedaço de papel, como frase isolada.