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Um arquivo para vocês baixarem com amor

There is an English version of this post waiting for you after the Portuguese one : )


{Para ouvir enquanto lê}

Há mais ou menos um mês, eu encontrei um blog incrível e falei dele, rapidamente, por aqui. Eu realmente amo achar pessoas que escrevem sobre o Eterno com o seu próprio coração. Você sabe aquele sentimento mágico de ler uma página e não precisar sequer procurar o autor, porque a forma da sua escrita é tão característica que já vem com o cheirinho dele? Eu acho isso uma das coisas mais incríveis dentro do mundo de coisas incríveis – alguns dias maior, outros menor – que flutua sobre a terra.

E é por isso que eu fico tão entusiasmada quando eu encontro uma pessoa que parece ter uma voz apenas dela.

Eu acredito na individualidade em nós. E que esta individualidade nos ajuda transmitir nossa mensagem. Eu já disse algumas vezes a famosa frase do Bill Johnson no blog, que, indiretamente, é algo como: nós só temos uma única mensagem em nós, que é divida em vários pedacinhos, que distribuímos ao longa de nossas vidas. Acredito que, assim como nossa mensagem é singular, nosso meio de espalhá-la precisa ser. Tudo que é genuíno pode contar a história do perfeito e incondicional amor de Deus.  Tudo que é genuíno pode gerar arrependimento.

Singularidade.

Que palavra!

Ela nos leva diretamente para ideia de que conhecer a Deus e conhecer a mensagem que partilharemos a partir dele é conhecer a nós mesmos. Porque sem nossa singularidade, sem aquilo que nos torna humanos, somos sinos ressoando melodias tão iguais que são tratadas como barulho de fundo pelo resto das pessoas. Augustinho já falava sobre isso centenas de anos atrás, quando ele propôs que conhecer a Deus é conhecer a nós mesmos.

Por muito tempo, infelizmente, os cristãos tentaram se adaptar a um padrão único para tudo. A singularidade era deixada de lado em busca da imagem do que era bom e “de bem”. Nós tentamos não ser humanos. Tentamos não sentir o mundo ao nosso redor. E, caso sentíssemos, tentamos fazer com que fossem apenas sentimentos bons e coerentes. Escrever algo que seja intenso e confuso? Bem, por muito tempo não era uma escolha.

Hoje, conseguimos compreender que Deus nos fez humanos, Ele não espera outra coisa de nós se não isso. É claro, continuamos caminhando em santidade, porque amamos vê-Lo, mas não nos escondemos dos sentimentos, não importa o quão confusos eles sejam e, olha, escrevemos sobre isso! Não é maravilhoso?

Caminhamos para um conhecimento sobre o Eterno tão mais profundo que podemos falar, abertamente, das melhores e piores coisas sem nos sentirmos mal sobre isso, porque somos amigos. E é isso que me atraiu no blog do Joel Figueroa. E é isso que me faz postar coisas todos (quase hehe) os meses.

Ser honesto, usando as ferramentas que te deixam feliz para fazê-lo. Ser honesto, cumprindo o seu chamado.

Acredito que essa geração de pessoas que são tão singulares na maneira com que pregam vão mudar radicalmente as coisas de lugar. Porque elas não precisam ser outra coisa se não elas mesmas e isso… Isso é apaixonante! Isso faz as pessoas se apaixonarem pelo evangelho. Jesus era quem era, e, por isso, ganhou o coração das multidões. Mas, mais do que multidões, ele ganhou o coração da sua nova família:  discípulos aliançados, comendo, rindo, viajando, tomando bronca juntos. Que nossas singularidades construam famílias em nosso meio.

Joel, autor do blog, me deu permissão para traduzir um dos seus textos e ele está aqui embaixo para você ! Espero que te inspire a ser singular no que você foi chamado para fazer.

Toc.Toc.Toc

Por Joel Figueroa

 

Um abraço apertado,

Nat.

 

English Version! 😀

A blog to add to your favorites (or: Joel Figueroa can teach you Portuguese now)

{To listen as you read}

About a month ago, I found an incredible blog and I wrote about it, quickly, in this post (sorry guys, there isn´t an English version of this one, but in Google Translator we trust). I really love finding people who write about the Lord with their own hearts. Do you know that magical feeling of reading a page and not even have to look for the author, because the writing is so distinctive that it already comes with the scent of the writer? I find this one of the most incredible things in the world of incredible things that floats on the earth.

And that’s why I get so excited when I meet a person who seems to have its own voice.

I believe in individuality, and this individuality helps us express our message. I have said a few times Bill Johnson’s famous phrase on the blog, which, indirectly, is something like: we only have a single message in us, divided into several pieces, which we distribute through all our lives. I believe that not only our message needs to be unique but also our means of spreading it. Everything that is genuine can tell the story of God’s perfect and unconditional love. Everything that is genuine can generate forgiveness.

Singularity.

What a word!

It leads us directly to the idea that knowing God and knowing the message we will share from Him is to know ourselves. Because without our uniqueness, we are ringing bells so equally that we are treated as background noise by the rest of the people. Augustine had already spoken about it hundreds of years ago, when he proposed that to know God is to know ourselves.

For a long time, unfortunately, Christians have tried to adapt to a single standard of personality. The search of the image of what was good before people left singularity aside. We tried not to be human. We tried not to feel the world around us. And if we did, we tried to make it about blameless and coherent feelings. A post – or book – about intense, confusing and honest feelings? Well, for a long time it was not on the table.

Today, we can understand that God made us humans. He expects nothing else from us if not this: humanity. Of course, we continue to walk in holiness, because we love to see Him, but we do not hide from our feelings, no matter how confused they are and, look, we write about it! Isn’t it wonderful?

We are walking into a knowledge about the Lord so deep that we can openly talk about the best and worst things without feeling bad about it because we are friends. That is what attracted me to Joel Figueroa’s writing, and that’s what makes me post things every (almost every haha) month.

Be honest fulfilling your calling.

I believe that this generation of people who are so unique in the way they preach will radically change things. Because they do not have to be anything else if not themselves and this … This is captivating! This makes people fall in love with the gospel. Jesus was who He was, and therefore won the heart of the crowds, but more than the crowds, He gained the heart of his new family: allied disciples, eating, laughing, traveling, reprimanding together. I pray our singularities build families in our churches.

Joel, author of the blog JoelFig, gave me permission to translate one of his posts to Portuguese, but, well, if you are reading this in English it will not make a lot of sense to you haha. I will leave the link anyway down here for you, but most than teach you Portuguese with this file haha, I will like to recommend Joel´s blog in your own language (the link is also below).  I hope it inspires you to be singular in your calling!

A tight hug (yep, that is how we say Goodbye here, near to the Tropic of Capricorn, get used to the lovable invasion of your personal space),

Nat.

 

Portuguese version:

Toc.Toc.Toc

Por Joel Figueroa

 

No subtitle version

Knock. Knock. Knock

Joel Figueroa 

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Pra sempre (ou: Como eu posso ficar brava com você?)

Hello! There’s an English version for you right below 🙂

(Recentemente, vi no status do blog acessos de alguns países que não falam nosso português maravilhoso, então, alguns textos terão uma versão em um inglês-gente-como-a-gente)



{Para ouvir enquanto lê}

– Não. MINHA pedra. MEU mar. Com licença? – Falo entre os dentes. A pessoa da cadeira ao lado me olha sem entender. Eu não explico.

A aula continua e eu tento voltar para o outro lado do mundo dentro de mim.

Uma pedra gigante e um mar gelado demais para entrar. Meu tipo favorito de mar: o que a gente fica encarando, enquanto abraça uma coberta fina.

Pequenos grãos de areia mandam, inicialmente, estímulos para o meu cérebro – estamos aqui! – mas, depois de alguns minutos, eles se tornam um pedaço de mim: meu sistema nervoso não acha mais necessário me dizer que os grãozinhos ainda se movem ao redor do meu dedinho do pé, assim como não me deixa notar o tecido da calça sobre minhas coxas.

Ele olha para cima, o vento faz seus cabelos vibrarem. Cabelos grisalhos e cheios.

Eu tento ignorá-lo como meu cérebro faz com a areia.

Mas Ele ainda está ali. Dentro de uma pequena fantasia que me faz civilizada o bastante para não levantar da cadeira e gritar a plenos pulmões no meio da aula.

“É irritante. Apenas… Não.” – Eu tento dizer a Ele, mentalmente.

“Eu não sei bem porque a gente veio para cá, você nem é uma pessoa de praia, mas eu gosto do vento.”.

“Meu Deus… Quer dizer, nada de Meu Deus. Só… Arg… Eu só quero ficar com a pedra e com o cobertor por três minutos…” – Eu grunho, como uma criança mimada.

“Quando você era pequena, você inventou uma história sobre uma princesa dos golfinhos, você lembra? Eu sempre achei aquilo muito engraçado, foi quando você ganhou um anel de golfinho, lembra?”

“Sim, da Tia Ló…”

“Você não quer um par deles no mar?”

“Nope.”

“Era engraçado porque você estava lavando o banheiro e cantando com um rodo, que era, também, o bastão que chamava os golfinhos…” – Minha visão periférica percebe a linha ao redor de seus olhos sorrindo, mas eu não queria me virar para Ele.

“Aquele musical foi um sucesso de bilheteria, deveria estar na Broadway”. – Quase rio.

“Ainda sem golfinhos?”

“Você se sentiria melhor se eu imaginasse dois golfinhos pulando no mar?” – Pergunto, novamente me transformando em uma criança chorona.

“Pra falar a verdade, eu me sentiria muito melhor se você imaginasse dois rodos pulando, enquanto fazem um barulho de golfinho.” – Os olhos sorridentes Dele ainda estavam ali.

“Ok, Deus, toma seus rodos” – Imaginei dois rodos de madeira cobertos por uma capinha plástica vermelha pulando no meio do oceano, enquanto um sonoro “wickickaisdhahragagagksksk”, ou seja lá o barulho que golfinhos fazem, ressoava sobre a pedra e o por do sol.

“Eu posso ficar?” – Ele não era mais Ele, mas era. Não era o pai, mas tinha a voz do meu amigo, do Espírito.

Eu odeio quando o Espírito vem e eu estou brava. Porque Ele é sim-ples-mente irresistível. Mais do que qualquer outra figura dos céus – e eu não sei se é certo dizer isso, mas o fato é que, pra mim, Ele é. Porque Ele foi enviado para nós e, enquanto não voltar para sua casa, nós somos sua casa.

“Pode…”

O professor tem um ataque de tosse.

“Você já vai?”

“Aula… Tenho que prestar atenção, eu acho…”

“Você sabe que tudo isso vai passar, não sabe?”

“O mundo e o mar e as aulas e o pé contra a areia.” – Afirmo.

“Tudo.”

“Sei, Espírito…” – E, alguns dias, eu realmente desejava que passasse mais rápido.

“Mas nós não vamos. Nós não somos um pedaço de areia no seu pé. Nós somos feitos para sermos sentidos para sempre. Um pelo outro. Pra sempre”

Balanço a cabeça. Imagino mais vento.

“Você não é areia. Eu sou sensível a você.” – Ele derrete feito cocada em dia quente.

Respiro e percebo que o mar não tem cheiro de maresia, porque eu nunca havia dito que ele deveria ter.

“Eu só…” – Me apoio em seu peito. Não há coração, mas escuto uma planta crescendo, e ela parece crescer pra sempre. – “Eu só estou cansada”.

O barulho do seu peito cresce, e cresce, até que se transforma em algo semelhante a uma canção antiga:

 

Você era uma semente
Mas olha, que cheirosa pode se tornar se for um fruto
Pra semente crescer, ela tem que morrer, eles disseram
Bobagem
Mas te disseram isso muitas vezes e você acreditou que se me entregasse até o que eu não pedi, eu ficaria feliz
E você velou a si mesmo algumas vezes, até que parou diante de grandes embarcações e homens barbados
O mar era o lugar em que os vikings enterravam seus heróis
Enterravam, mas não velavam, você pensou. Não velavam!
O mar era o lugar em que os vikings enterravam seus heróis – isso ocupava toda a sua cabeça
Os vikings achavam que eu não estava ali, você achava que eu não estava aqui, mas eu estou em todo lugar
Eu vi os mortos incendiados ao boiar
A terra é um lugar rápido de se dar a volta quando o tempo não importa
E eu só precisei dar três passos, passei pelos vikings, pelos arranha céus e te encontrei, aqui, no mar que não tem cheiro de maresia, mas de rodos flutuantes
Tire a esperança da água, pare de enterra-la, afoga-la, fingir não vela-la
Porque vocês são mais do que um emprego e contas para pagar
Vocês foram pagos
O meu peito cresce por você, como flor desabrochando, e tudo em mim faz barulho de planta que mal pode esperar para sair da terra, porque nós vamos viver para sempre
Você não entende o quanto o pra sempre é pra sempre
Mas vai entender
Porque a vida é maior do que toda essa água
E nós dois, juntos, somos mais bonitos do que o mar

Eu fiquei ali, em seu peito cheio de plantas, até que pudesse responder inaudivelmente o que o professor perguntava pra turma, claramente, pela décima vez.

– Peptidoglicano. – Respondi do que as paredes das bactérias eram feitas, pensando sobre o dia que nossas paredes cairiam e ele cantaria suas músicas pra sempre.


English Version! 😀

Forever (or: How can I be mad at You?)

 

– No. My stone. MY SEA. Excuse me?! – I speak between my teeth. The person next to me looks  confused. I do not explain.

The class continues and I try to go back to the other side of the world, inside me.

I imagine a giant stone and a sea too cold to go into. My favorite type of sea: the one we stare at, while hugging a thin blanket.

Small grains of sand initially send stimulus to my brain – we’re here! – but after a few minutes they become a piece of me: my nervous system no longer finds it necessary to tell me that the grains still move around my little toe, just as it does not let me notice the fabric of the pants on my thighs.

He looks up, the wind makes his hair vibrate. Gray hair.

I try to ignore him just like my brain ignores the sand.

But He is still there. Inside my little fantasy that makes me civilized enough to not get out of the chair and scream at the top of my lungs in the middle of class.

“It’s annoying. Just … Don´t. ” – I try to say to him, mentally.

“I don´t know why we came here, you’re not even a beach person, but I like the wind.”

“Oh my God … I mean, none of “Oh my God”. Just … Arg … I just want to be here alone with the stone and the blanket for three minutes…” – I growl like a spoiled child.

“When you were little, you invented a story about a dolphin princess, remember? I always found it very funny, that was when you got a dolphin ring, remember? ”

“Yes, my Auntie Ló gave it to me…”

“Don’t you want a couple of them at sea?”

“Nope.”

“It was funny because you were washing the bathroom and singing with a squeegee, which was also the stick that called the dolphins…” – My peripheral vision notices the line around his eyes smiling, but I did not want to turn around for him.

“That musical was a hit, it should be on Broadway.” – I was almost laughing.

“Still no dolphins?”

“Would you feel better if I imagined two dolphins jumping in the sea?” I ask, again turning into a crying child.

“To tell you the truth, I would feel a lot better if you imagined two squeegees jumping as they make a dolphin noise.” His smiling eyes were still there.

“Okay, God, here we go.” – I imagined two wooden squeegees covered by a red plastic cap jumping in the middle of the ocean, while a “wickickaisdhahragagagksksk”, or whatever is the noise made by dolphins, resounded on the stone and on the sundown.

“Can I stay?” – He was not He anymore, but He was. It was not the father, but my friend, the Spirit.

I hate when the Spirit comes and I’m angry. Because He is simply irresistible. More than any other figure – and I do not know if it is right to say this, but the fact is that, for me, He is. Because He has been sent to us and, as long He can’t return to his house, we are his home.

“You can…”

The teacher had a coughing attack.

” Where are you going?”

“Class … I have to pay attention, I think …”

“You know all this will pass, don’t you?”

“The world and the sea and the classes and the foot against the sand.” – I said.

“All.”

“I know, Spirit …” – And, some days, I really wanted them to pass faster.

“But we will not. We are not a bit of sand on your foot. We are meant to be felt forever. One by the other. Forever.”

I agree with my head and I imagine more wind.

“You’re not sand. I’m sensitive to you. “- He melts like a candy in a hot day. So sweet. So real.

I breathe and realize that the sea does not smell like sea, because I had never said that it should have.

“I just …” – I lean against his chest. There is no heart, but I hear a plant growing, and it seems to grow forever. – “I’m just tired.”

The noise of his chest grows, and grows, until it turns into something like an old song:

You were a seed
But look, what a scented thing you can become if you turn into a fruit
For the seed to grow, it has to die, they said
Nonsense
But they told you that so many times and you believed that if you gave in things I didn’t even asked, I would be happy
And you grieved yourself a few times, until you stopped in front of great vessels and bearded men
The sea was the place where the Vikings buried their heroes
They buried, but they did not grief, you thought. They did not grief!
The sea was the place where the Vikings buried their heroes – this occupied your whole head
The Vikings did not think I was there, you did not think I was here, but I’m everywhere
I saw the dead in the sea
Earth is a quick place to turn around when time does not matter
And I only had to take three steps, I went through the Vikings, through the skyscrapers and I found you here, in the sea that does not smell like sea, but like floating squeegees
Take your hope out of the water, stop burying it, drown it, pretend not to grieving it
Because you are more than a job and bills to pay
You have been paid
My chest grows for you like blossoming flower, and everything in me makes this noise, the noise of a plant that can hardly wait to leave the earth, because we will live forever
You do not understand how forever is forever
But you will
Because life is bigger than all this water
And the two of us, together, are more beautiful than the sea

 

I stood there in his chest full of plants until I could answer what the teacher was asking the class, clearly, for the tenth time.

–  Peptidoglycan. – I replied, almost inaudible. That was what bacteria’s walls were made of. But I was not thinking in microbiology, I was thinking about the day our walls would finally fall and He would sing his songs forever.

Alguns dias, a misericórdia do Eterno parece um beijo de um desconhecido em sua namorada, em um episódio escrito pela Shonda Rhimes (em um em que ela esteja proibida de matar qualquer personagem)

Este é um post com um texto dentro do outro e, por isso, com duas músicas.

Um beijo,

Nat.



{Para ouvir enquanto lê (1)}

É muito fácil odiar a humanidade.

Os motivos são incontáveis.

Todas as semanas milhares de novos motivos aparecem. Milhares de motivos frescos e coerentes.

Eu me lembro de quando trabalhava em uma redação de jornal online de madrugada, cada um desses motivos borbulhavam em mim. Aquele foi um período difícil. Eu odiava noticiar tudo o que escrevia. Eu odiava ligar para a polícia e fazer a “ronda” de todas as coisas horrendas que o ser humano havia conseguido fazer em um único dia. E no outro dia tudo o mal começava de novo.

Um dia, quase meia noite, eu recebi a notícia de um estupro terrível na minha caixa de email. Apenas assim. Acima daquele email estava outro email bobo de uma amiga que fiz em um site de conversação em outras línguas. Ela estava me pedindo indicações musicais em português e me perguntando sobre o clima. E bem ali embaixo, bem ali, estava um release da assessoria de comunicação da polícia, explicando que eles haviam acabado de prender um homem que vinha abusando sexualmente de uma menina há anos. Os detalhes. As minucias da crueldade humana.  Eu corri para o banheiro. O jornal não tem quase ninguém durante a madrugada, por isso o barulho dos meus sapatos contra o azulejo soou tão alto quanto um insulto. Eu me tranquei ali, entre a pia e a porta, por uns dez minutos. Tentando não chorar, ou pelo menos tentando não chorar muito.

É incrivelmente fácil odiar a humanidade.

Nesta última semana, o Brasil se perguntou algumas vezes se era possível sentir algo diferente de ódio por toda a nossa raça. Confesso que não tem sido simples. Os jornais mostraram notícias tão terríveis que as pessoas nem tem coragem de transformá-las em conversas banais no elevador ou no ponto de ônibus.

Ninguém ousou dizer “Você viu aquilo no jornal?”. Todo mundo viu e todo mundo estava tão profundamente chocado que até os “bom dia” foram silenciados.

Sempre que algo assim acontece, eu pergunto para Deus como Ele pode nos amar. Como ele pode achar em nós o seu folego depois de termos sido soprados por tanta maldade.

E o texto que vem agora – uma colagem do meu dia-a-dia – é uma resposta ao amor que Deus tem derramado em mim por tudo que está a minha volta e uma carta de amor por Goiânia, que não é o que os jornais dizem. Que não pode ser apenas o que os jornais dizem.

{Para ouvir enquanto lê (2)}

Eu acordo cedo.

E comigo acorda a cidade.

As crianças choram no ônibus. Há tanta vida naqueles pulmões e melodia na cadência do seu choro.

Ainda está muito cedo. Eu cruzo o centro de prédios apertados e vendedores ambulantes. Eles gritam e me oferecem água.

“Dois reais, moça”

“Obrigada”, sorrio.

Por que cada um deles tem um tom de voz desenhado especificamente e unicamente para ele.

E por mais bobo que pareça, sei que o Eterno ama ouvi-lo.

“Olha a águaaa”, o vendedor continua oferecendo. E eu sei que aquilo é poesia para o Senhor. Porque Ele desejou as nossas pregas vocais. Ele nos fez gritando por coisas. Nós ainda gritamos por coisas terrenas, mas Ele espera pelo dia que gritaremos por coisas eternas. Pela única e verdadeira água da vida.

Há trafego e espera na cidade.

Mas as coisas de Deus também pedem por espera.

Há Ipês roxos se abrindo, há sol, há calor que faz uma gotinha de suor desavisada dançar nas costas do menino rindo na porta de casa.

“Deixa eu levar sua sacola”, uma mulher diz para a senhora, enquanto aperta a botoeira e o sinal fecha.

Risadas escandalosas no banheiro da faculdade.

Deus ama o nosso senso de humor.

Gente correndo no fim da tarde, em um parque verdinho. Os seus pés batucam o chão em um ritmo celestial. E eu imagino os anjos dançando break.

Os professores fazem poesias enquanto explicam como uma célula cardíaca é capaz de excitar a outra, e acreditando ou não no Eterno, eles explicam como as coisas Dele são incríveis.

Há um moço na livraria, ele me convida para tomar café e explica porque eu não deveria comprar o livro que queria e deveria comprar o livro que ele estava lendo. Eu rio. Porque Deus adoraria estar ali, no meio daquela discussão, falando sobre escrita, porque Ele é toda a criatividade que existe. Ele é a Shonda Rhimes dos plot twists (sem as mortes dramáticas hahaha).

Eu faço o jantar e bato nos cantos das panelas, tentando acompanhar a minha música. Obviamente, meu molho pula no fogão. E eu posso sentir que o Eterno está ali, dizendo “nós limpamos depois de terminar esse refrão, está quase ficando como eu espero”.

E ele ri de mim no dia seguinte, porque meu colega de apartamento não avisou que a resistência do chuveiro queimou e eu abri a água com tudo em cima da minha cabeça.

“FSDJFHWOHORHEDFAJSDF?!!!!!!”, berro algo que não existe em português, dentro do banheiro. A água estava uma pedra de gelo.

Ele gargalha.

E ri mais ainda quando me vê vendo tutoriais de como arrumar a resistência do chuveiro sem saber direito sequer como abrir um chuveiro.

E um outro dia começa.

E com ele todas as coisas que o Senhor ama sobre a gente. Ele nos diz que vai nos dar uma nova oportunidade. E isso, isso é misericórdia nova e fresca.

E lá vamos nós de novo, cruzando a cidade. Cheia de gente.

Gente que o Eterno ama.

Gente pela qual o Eterno mandou o seu filho.

Crianças rodando seus spinners.

Velhos comprando seus jornais.

Estudantes exaustos dormindo nas cadeiras dos ônibus.

Um moço de camisa roxa beijando sua namorada como se estivesse prestes a ir para o exílio.

O Eterno nos ama.

Não porque somos bons, mas porque nós somos Dele.

E isso, bem, isso faz toda diferença.

Querido JoelFig, eu não te conheço, mas obrigada

{Para ouvir enquanto lê}

 

Depois de passar o dia na biblioteca da universidade estudando, fui para o ponto de ônibus e ele não passou na hora que deveria. Novidade…

“Eu odeio poucas coisas como o 105, Deus…”, pensei.

105, o ônibus que se atrasa, está sempre cheio e é impossível de se escapar.

Então, eu comecei a abrir coisas aleatórias no meu celular, curtir fotos de amigos dos quais tenho saudades todos os dias, comecei a me perguntar porque a vida nos dá tantos pratos para girar ao mesmo tempo e como seria bom deixar alguns caírem para ver todos esses amigos todas as semanas.

E bem… foi mexendo aqui e ali no Instagram que eu achei. Eu achei. Sim, eu achei.

“O que pelo amor de Deus?!”, você me pergunta.

Bem, eu achei um dos melhores blogs que eu já li em muito tempo.

Sério.

Eu não tinha pretensão nenhuma naquele dia: eu só precisava chegar em casa, tomar um banho, estudar um pouco mais. Mas eu fui invadida pela presença de Deus. De uma forma intensa.

Enquanto eu lia um dos melhores textos que li em eras sobre o Eterno, a maior chuva de todas começou a cair.

As pessoas do ponto de ônibus começaram a reclamar, agarrar as suas mochilas, começaram a a se amontoar no centro do lugar, tentando ficar o mais longe possível do temporal gelado. E eu? Eu estava ali, feito uma maluca, tomando chuva. O vento fazia meu cabelo dar piruetas, as gotas respingavam no meu celular, e eu tentava não chorar ou rir muito alto.

Deus pode nos encontrar das formas mais incríveis. Como o autor do blog escreveu: He is a wild thing.

Eu e o cara mais incrivelmente selvagem que eu conheço nos molhamos  e entramos sorrindo no 105, coisa que as pessoas não costumam fazer naquele ônibus.

E qualquer um que me visse naquele dia sabia que eu era só Dele e Ele era só meu.




Por favor, leia esse blog: Joelfig 😉

O seu rugido é minha canção favorita

{Para ouvir enquanto lê}

“Você não sabe o meu tamanho. Não há como você me mensurar. A sua mente não consegue. Você continua me colocando em pequenos espaços, esperando que eu faça pequenas coisas. Mover montanhas de um lado para o outro é pouco. Você não sabe o meu tamanho. ”

Enquanto Ele falava, cordas caiam de um leão que parecia estar atado. E o leão crescia. Crescia. Crescia. Sua juba se tornou selvagem, seus olhos brilhantes, havia vida, vida violenta, em cada um de seus pelos.

Ele continuou:

“Você não entende ainda. Eu sou pai, mas não sou apenas pai. Eu sou o Leão da Tribo de Judá. E as cordas do seu entendimento nunca poderão me segurar. ”

O leão rugiu e tudo pareceu incrivelmente minúsculo perto do som de sua voz.

 

 “E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos.”

Apocalipse 5:5



Leia também:

Eu preparo o chá que iremos tomar em nossa nova casa, Deus, quando finalmente o meu espírito vir o Seu

Omelete (ou: Eu queria ser um escorredor para que as costas do Eterno se apoiassem em mim)

{Para ouvir enquanto lê}

Eu abro os olhos, e com a voz rouca, mal mal audível, tateando pela cama a procura dos óculos – eu tirei os óculos, certo? Será que eu dormi com eles?! Não, não, eles estão aqui, do meu lado -, encosto os pés no chão de madeira, passo os dedos pelas minhas costas, respiro em voz alta:

– Bom dia, Deus.

E Ele está ali. Todas as manhãs.

Fazemos café juntos.

–  Hoje acordei na hora, vai dar tempo de fazer omelete. – Explico a Ele.

Sentamos nós dois na mesinha da cozinha da minha avó – onde eu fico durante a semana. Só há uma cadeira de ferro, mas ele traz um banquinho do céu. Brilhante como Ele.

Eu corto os ovos. Nós mastigamos.

il_570xN.874872859_3i2xE tudo parece sincronizado. Eu falo. Ele responde. Eu faço silêncio. Ele cantarola. Eu lavo as vasilhas do café, Ele espera ao lado da pia. Suas costas ali, quase tocando o escorredor. E eu penso: que escorredor sortudo. E, antes que eu termine de pensar, Ele ri, porque sabe que eu espero pelo dia que os seus dedos vão me alcançar e eu sentirei.

Agora em parte. Mas, no futuro, conhecerei a Ele como também sou conhecido.

E nesses dias, em que o café da manhã parece uma propaganda oficial do céu que está por vir, eu desejo, do fundo de mim, que eu nunca o entristeça.

 

 

 

Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face;
1 Coríntios 13:12

 

Do meu quarto. Do meu desafino. (3)

Algumas vezes, eu pergunto para Deus como era o coração de John Wesley. Eu passo os olhos pela sua biografia e me impressiono com o fogo que irradiava por sua pele e queimava seus ossos. “Eu me coloco em chamas, e o povo vem para me ver queimar”.

Como eu posso queimar de forma incontrolável? De forma que nunca mais tenha volta? Eu perguntei ao Senhor enquanto a letra da música abaixo ia sendo desenhada. A resposta é simples, mas, como tudo no evangelho, ela exige tudo de você.

E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo.
Hebreus 1:7

É preciso ser ministro.

Um dentista ministro. Um diácono ministro. Um economista ministro.

E foi assim que este Do meu quarto. Do meu desafino. perdeu todo o meu quarto e ganhou John Wesley.

 



Este projeto não é sobre cantar bem, claramente. Mas é sobre dizer coisas para Ele. Se você tem uma canção que está amando cantar para Ele, me mande (nataniacarvalho@gmail.com), vamos dividir nossos corações e sermos parte uns dos outros ❤


Leia também:

Do meu quarto. Do meu desafino. (1)

 Do meu quarto. Do meu desafino. (2)

Quem?

{Para ouvir enquanto lê}

Nada pode nos prender. Eu fecho os olhos com força. Respiro. Nada pode nos prender. Nem as paredes dos ônibus. Nem os livros desinteressantes sobre genes recessivos. Nada pode nos prender. Mesmo quando nossas mãos parecem atadas e os pés não vão para frente ou para trás. Andaremos em verdadeira liberdade, pois temos buscado os teus preceitos. Nada pode nos prender. Nem a vontade congelante de chorar. Nem a adrenalina pulsante que nos faz correr. Porque nossos espíritos são maiores do que as camas em que nossos corpos deitam, encarando o teto. Porque somos mais duros do que as pedras que acertam nossas carnes. Permanecemos firmes e não nos deixamos submeter novamente a um jugo de escravidão. Nada pode nos prender.  Nem o dinheiro que eles inventaram, nem a falta dele. Nós somos pequenas abelhas que saem pelas beiradas das janelas. Nós voamos pelas correntes de ar. Ele nos enviou para proclamar liberdade aos presos. Proclamadores. Vozes dispersas no deserto, batendo contra as areias geladas, chocando-se contra o mundo. Nada pode nos prender. Nós vamos passar pelas frestas. Nada pode nos prender. Somos a dúvida: onda ou partícula? Nada pode nos prender. Porque quem pode prender quem já morreu pra si?

 

 

 

E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu.
Romanos 5:5