Um texto sobre nada, sobre tudo, sobre umbigos (Ou: Margarida. Eu chamaria nossos umbigos de Margarida)

{Para ouvir enquanto lê}

O universo me impressiona.

A existência dos dentes.

Os nossos dois olhos.

O corpo envelhecendo e ainda sim gerando tecido conjuntivo para enfiar nas nossas cicatrizes.

Cicatrizes me impressionam.

Tudo sara.

Mesmo que não funcionalmente.

E isso… isso tudo me impressiona.

De uma forma em que tudo é ridículo, de uma forma em que tudo é maravilhoso.

Eu sempre quis ser como outra gente, queria ter outro olho, falar melhor, escrever de outro jeito, correr todo fim de tarde, rir mais baixo.

Hoje, hoje eu me impressiono comigo.

Eu estou de pé, mesmo depois de tudo isso.

Tudo isso que deita montanhas e erosiona pedaços de rochas.

Mas eu, feita de cipós mais densos que o vento, eu resisto, quase intacta, faltando apenas um pedaço aqui e outro aculá.

Assim como eu não tombo, milhares de pessoas também permanecem de pé.

Sim, as pessoas me impressionam.

Tão graciosas com seus passos de dança, tão imbecis com suas armas em punho, tão dedicadas criando suas proles, tão apavorantes decidindo pelo fim das outras.

No mesmo dia, choraram copiosamente, empurraram seu primeiro carrinho de brinquedo, ganharam o pior não da sua vida, foram tão felizes quanto um beijo de saudade, tão miseráveis quanto velório de mãe, tão pessoas quanto qualquer um pode ser.  Assim como eram 345 anos atrás, como serão daqui a 345 anos.

Tudo muda, tudo é igual.

Enquanto escrevo, tudo nunca mais vai ser como é, tudo irá se repetir eternamente.

Escrever me impressiona.

Ainda que metade dos meus rascunhos estejam encantoados em pastas perdidas em pendrives não identificados, eu me guardo o direito de chorar quando uma frase sai exatamente como eu mastiguei e cuspi em meu coração. Eu aumento o volume de Clair de Lune e continuo digitando, em busca de me sentir assim para sempre.

Debussy me impressiona.

E sobre isso não há mais complementos.

Complementos me impressionam.

Porque eles são a prova de que gostaríamos de dizer mais sobre a vida do que o que já foi dito.

A vida me impressiona, leitor, porque para percebê-la eu preciso tirar meus olhos do buraco redondo da minha barriga. Buraco que chamam de umbigo, mas que, por mim, tinha outro nome.

 

English version

A post about nothing, about everything, about navels (or: Daisy. I would call our navels Daisy)

 

{To listen as you read}

 

The universe impresses me.

The existence of teeth.

Our two eyes.

The body is aging and still generating connective tissue to stick to our scars.

Scars impress me.

Everything heals.

Even though not functionally.

And this … this all impresses me.

In a way that everything is ridiculous, in a way that everything is wonderful.

I always wanted to be someone else, I wanted to have another eye, to speak better, to write in another way, to run every afternoon, to laugh without making so much noise.

Today, today I am impressed with myself.

I’m standing, even after all this. All this was able to throw mountains and make rocks into pieces. However I, who am made of lianas denser than the wind, I resist, almost intact, missing only a little piece here and there.

Just as I do not fall, thousands of people also stand.

Yes, people impress me.

So graceful with their dance steps, so foolish with their guns in their hands, so dedicated in raising their children, so terrifying deciding the end of the others.

On the same day, they wept copiously, they pushed their first toy car, they got the worst “no” of their life, they were as happy as a longing kiss, as miserable as the day that their mothers died, they were as people as anyone can be. Just as they were 345 years ago, as they will be in 345 years.

Everything changes, everything is the same.

As I write, nothing will ever be the same and everything will repeat itself forever.

Writing impresses me.

Even though half of my drafts are abandoned in unidentified flash drives, I keep the right to cry when the sentence comes out exactly as I chewed and spit in my heart. I turn up Clair de Lune volume and keep typing, searching to feel this way forever.

Debussy impresses me – and to this phrase, complements are not needed.

Complements impress me.

Because they are proof that we would like to say more about life than what has already been said.

Life impresses me, reader, because in order to perceive it I need to take my eyes off the round hole of my belly. Hole they call a navel, but if it was up to me, it had another name.

Um comentário em “Um texto sobre nada, sobre tudo, sobre umbigos (Ou: Margarida. Eu chamaria nossos umbigos de Margarida)

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