Arquivo mensal: setembro 2018

Até que você me seque

{Para ouvir enquanto lê}

Eu me sinto como a água próxima a uma canoa no meio do Araguaia.

Ela se estapeia com força contra o casco da pequena embarcação.

Pluft.

De novo e de novo.

Ela não escolheu o barco, não conhece seus passageiros, não está usando coletes salva-vidas.

A água apenas se lança contra a canoa, impotente, chacoalhando-se.

Quando a decisão dos outros, mais canoas do que eu, mesmo que corretas, me lançam contra um pedaço de alumínio pintado e com cheiro de peixe, eu não sei o que fazer. Eu choro, como se eu fosse realmente água. Eu me derreto no chão do banheiro e sobre a cama. Me despejo perto da máquina de lavar e meu cachorro lambe uma lágrima perto da minha mandíbula.

Pluft.

Eu penso nos Salmos e imagino Davi, ruivo e franzino, cantando suas letras em profunda tristeza. Nessas horas, eu me pergunto se ele já se sentiu água, escorrendo por toda Israel.

Não tenho resposta.

Ainda molhada, eu olho para o Senhor. Ele está completamente calado, respiro fundo.

– Ele é bom. – Digo para mim mesma, em voz alta.

Ele é, para sempre, toalha.

 

English version

Until you dry me

I feel like the water next to a canoe in the middle of the Araguaia, slamming into the hull of the small boat.

Pluft.

Again and again.

That water did not choose to be near the boat, it does not know its passengers, it is not wearing life jackets.

The water just leaps against the canoe, powerless, shaking.

When the decision of others, more canoes than me, even if correct, throw me against a piece of painted aluminum , I do not know what to do. I cry, like I’m really water. I melt on the floor of the bathroom and on the bed. I overflow near the washer and my dog ​​licks a tear near my jaw.

Pluft.

I think of the Psalms and imagine David, red-haired and thin, singing his lyrics in deep sadness. At these times, I wonder if he ever felt water, running all over Israel.

I do not have an answer.

Still wet, I look to the Lord. He is completely silent, I breathe deeply.

– He is good. – I say to myself, out loud.

He is, forever, a towel.

Completamente inexplicável, maravilhosamente boa

Talvez a vontade Dele seja exatamente (ou quase exatamente) como minha obsessão por ler biografias de físicos sem ter NENHUMA habilidade para o assunto em si. Inexplicável e, ainda sim, eu viro outra página, fascinada por Isaac.

“Não me peça para calcular nada”, eu imploro a Ele, mas quem é que pode moldar a vontade do Eterno se não Ele mesmo?

 

English version

 

Completely inexplicable, wonderfully good

Perhaps His will is exactly (or almost exactly) my obsession with reading biographies of physicists without having ANY skill in the subject itself. Inexplicable, and yet, I turn  another page, fascinated by Isaac.

“Do not ask me to calculate anything,” I implore Him, but who can shape the will of the Lord if not Himself?

Feliz quinto aniversário para a gente! (Ou: O pedaço de Deus em cada um de nós)

Este é um texto bem bem bem maior do que costumo postar, mas perdoa vai, é nosso aniversário 😀


{Para ouvir enquanto lê}

 

5

 

Inacreditavelmente, cinco anos se passaram desde que eu escrevi meu primeiro texto neste blog. Cinco anos muito loucos.

Você que me lê me viu de todas as formas possíveis – jornalista, professora, estudante de novo. Você me viu muito feliz e muito triste. Você me viu em duas cidades, e me vê trançando de uma para outra diariamente. Foi com você que eu dividi meus versículos preferidos e minhas angústias menos prediletas. É você quem sabe minhas histórias mais curiosas com o Espírito – como aquele dia da chave – e as verdades mais simples de um evangelho ainda mais simples: levantar e continuar andando, um passo de cada vez, até que Aquele que é perfeito venha.

Eu aprendi a te responder por email como se fossemos velhos conhecidos e senti o seu cuidado por mim quando demorava postar algo.

Você me costurou enquanto eu te costurava. Nós nos tornamos uma colcha maravilhosa de CENTENAS de posts.

Eu não poderia ser mais grata por você. Pela sua pessoa real – e não apenas pelas suas letras lidas na minha tela.

Família. Uma família bloguística incrível e que eu nunca podia imaginar conhecer quando eu decidi sentar e preencher a pergunta do wordpress: qual o nome do seu blog?

Para falar a verdade, o blog começou anos antes que o blog realmente começasse. Desde que eu me entendo como alguém capaz de decodificar o alfabeto, nada é tão satisfatório quanto escrever. Parágrafo atrás de parágrafo. A primeira linha de um livro, a primeira letra no word. A página deixando de ser branca. A sensação de escolher uma palavra, como se ela estivesse ali, no cantinho do meu cérebro, coberta em caramelo, ansiosamente esperando para ser colocada entre um sujeito e um verbo qualquer. Quando eu era adolescente, eu me pegava anotando coisas que hoje posto por aqui, no canto dos meus cadernos da escola. É como eu me conecto com o mundo e com Deus. Eu já disse isso no blog, mas antes que eu pudesse me entender com os formatos dos textos, lá pelos sete ou oito anos, eu escrevia grandes-gigantes-enormes-pergaminescas cartas para o Eterno e as jogava da janela, esperando que tivessem sumido pela madrugada. Quase nenhuma sumia, mas eu sabia que Ele havia lido.

Nos últimos cinco anos, eu mandei muitas cartas para o Senhor por aqui, e eu recebi muitas respostas delas. O melhor: elas deixaram de ser apenas cartas e se transformaram em uma rede de peixes.

Eu me pescava e te pescava, enquanto éramos embalados pelos ventos calmos – ou extremamente agitados – da nossa caminhada cristã.

Eu aprendi muito! Sim, esses cinco anos me ensinaram diversas lições, desde as mais simples (não pule no lago do vaca-brava/ não espere um 263 vazio/ não dê seu coração temerosamente / não seja tão orgulhoso assim/ não deixe o tempo te fazer um expert em cristianismo, surpreenda-se com o Senhor/ escolha sempre amaciante concentrado/ não tenha medo das suas dúvidas teológicas/ não dá MESMO para agradar muita gente, mas desagradar todo mundo é muita babaquice/ pagar língua é uma prestação do oxigênio, se você está respirando ainda tem muita língua para ser paga), até uma das mais complexas: não é contra carne e o sangue.

E se não é contra a carne, é sobre ser a favor das pessoas. Cinco anos aprendendo, dentro de minhas limitações tão limitantes, a amar as pessoas, cinco anos aprendendo que Aquele  que é Todo Poderoso, o Guarda de Sião, o Nosso Pastor vive em pessoas e não, simplesmente, nas ideias delas.

Não é apenas sobre enxergar o melhor nos outros, mas sobre ver o Senhor dentro deles. Esta é minha mensagem de aniversário: o Espírito vive dentro das pessoas. Parece extremamente óbvio, mas não é tanto assim… É sobre parar e encontrar partes incríveis escondidas do Eterno em nós.

– Venha me encontrar. – O Filho ri, correndo como uma criança.

Eu tenho corrido atrás Dele e o achado, também, dentro das pessoas.

O meu presente de cinco anos para você é dividir três pessoas que realmente são cheias de Deus e demonstram isso fortemente através de algumas de suas características. Hoje, eu vou apresentar para você, amigo leitor, um pouco da sabedoria, dos sonhos e da mansidão de Deus através de  pequenas entrevistas .

Seja bem-vindo ao O Espírito que vive dentro de três incríveis pessoas que conheço (inserir um jingle do tipo roda-roda, ou qualquer coisa meio SBT). Os personagens do nosso minijogo de aniversário são Evania, a sábia; Vitor, o manso e Luiz, o sonhador.

—–  Evania

Quando a Evania começa a falar, eu sei que tem algo novo de Deus ali. Simples assim. Eu me lembro de um dia muito, muito, blé, eu corri para a igreja no meu horário de almoço, eu precisava orar, eu precisava desesperadamente de qualquer coisa, e ela estava ali. Nós fomos para o altar juntas e um rio, verdadeiramente um rio, de águas do céu se dissolveram da sua boca. É fácil ver sabedoria nela. É fácil ver essa partezinha do Senhor pulsando através dela. E foi exatamente isto que eu perguntei a ela. Como, meu Deus como, ser guiada em sabedoria?

Evania – “Eu não percebo essa sabedoria nata em mim, porém eu percebo essa sabedoria em Deus, e a própria palavra nos diz que aquele que precisa de sabedoria pode pedir. Então eu me vejo diante de duas escolhas: eu posso continuar vivendo minha vida normal e fazer minhas escolhas ou eu posso buscar uma sabedoria em Deus e fazer minhas escolhas com a sabedoria Dele. Eu decidi. Eu não quero viver do meu próprio entendimento mais, eu quero ir além. Se Deus habita em mim, eu posso desenvolver a sabedoria.

Isso é um desafio diário, principalmente no início, porque eu tive que romper com a minha lógica, com o que eu tinha como certo e errado. O Espírito me dava direções e elas iam ao contrário do que eu faria normalmente. Foi muito desafiador para mim abrir mão da minha lógica, quebrar um ciclo. Hoje em dia, não é tão difícil, como eu decidi obedecer, eu comecei a discernir de forma mais clara quando era a voz de Deus ou não.

Ser guiada em sabedoria impactou não só a minha vida, mas a vida de outras pessoas. Às vezes, o Espírito me pedia que eu respondesse de uma certa maneira para alguma pessoa e não era bem aquilo que eu queria dizer, mas quando eu respondia segundo a sabedoria Dele, eu sentia que a pessoa experimentava um impacto muito grande e isso voltava imediatamente para mim e era como se eu mesma houvesse sido aconselhada.

Há também momentos que não acontecem todos os dias, que são mais raros, que não tem relação com minhas escolhas, algo mais sobrenatural, em que eu sinto que eu estou falando algo que vai além da minha sabedoria, algo que vai além do que eu já tive acesso, e eu sei que vem direto de Deus. Ele é dono de toda sabedoria. ”

—– Vitor

Eu conheci o Vitor recentemente em um núcleo de oração da Faculdade e acreditem: ele é, possivelmente, um dos seres humanos mais calmos que já existiram (cuidado Moisés, hehe). É algo extremamente natural. A confiança de quem ele é no Reino vem do Eterno e parece ter sido liberada desde a sua conversão. O Vitor se converteu no Ensino Médio, através de uma professora, nos seus momentos de dúvida, ela o encorajou biblicamente pelo extinto msn (escutar o barulhinho de uma janela subindo aqui). Mas, antes mesmo de eu saber toda essa história, era impossível não perceber que o Senhor era o dono da sua calma, e foi exatamente sobre isto que nos conversamos e ele explicou como ser calmaria, mansidão de Deus, como ter certeza de que tudo realmente coopera para o nosso bem, em um mundo desesperado.

Vitor – “É preciso lembrar das verdades da palavra de Deus. Vai com a certeza de que você já ganhou, a gente não vai para uma batalha duvidando da vitória. Eu vou fazer uma prova de vestibular, de monitoria, com a certeza de que eu já passei, de que eu sou mais do que vencedor. Eu acho que uma das coisas mais poderosas, mais fortes que eu aprendi a respeito da Bíblia, é declarar a palavra. Eu não peço para ser abençoado, eu já sou abençoado, você tem que declarar. Se Deus se preocupa com um passarinho, em vestir um lírio, como o Senhor não vai se preocupar em cuidar de nós? E a palavra ainda diz que todas as coisas cooperam para aquele que ama a Deus, você tem que declarar! Você entende esse versículo quando realmente entende que Jesus te amou, quando entende que Deus mandou Jesus para morrer em seu lugar.

Quando você aceita a Jesus, quando Deus olha para você, na verdade, Ele vê a Cristo, então eu tenho essa certeza de que as coisas vão dar certo, não por algo que faço, mas porque a justiça de Cristo foi colocada em mim. Jesus foi colocado como propiciatório da arca, a tampa da arca, e isso significa que Cristo está acima do sentimento da vergonha que temos ao nos compararmos com a Lei, acima da rebelião de Corá e da nossa negação da provisão de Deus; quando Deus nos olha, Ele vê a tampa, que é o próprio Jesus. Quando você olhar para você mesmo, você precisa ver Jesus, não seus erros, suas rebeliões e negações, quando você olha para você é claro que parece que nada realmente vai dar certo, mas o segredo é olhar para Cristo. Virão dias difíceis, mas a certeza de que tudo vai dar certo é maior. Deus é o meu pai e o meu pai me ama.”

—– Luiz

Luiz, um amigo e antigo companheiro do ministério de mídia, o homem das teologias, das coisas ~diferenciadas~, o novo baixista da Irlanda e dono da habilidade de sonhar vai te explicar, leitor, como começou a acreditar nesta partezona do coração de Deus: os sonhos.

Luiz – “Eu gosto de dividir minha vida em músicas, acho que você entende né? ”

OBS: ESTE É O LUIZ TENTANDO GANHAR NO MEU PRÓPRIO JOGO MUSICAL DA VIDA, VAMOS DEIXAR ELE IMAGINAR QUE PODE, PORQUE ELE É O CONVIDADO hehehe.

“Quando você fala sobre sonhar, eu me lembro de No Longer Slaves, e não só por causa da letra, mas pelo o que ela representa para mim: uma parte da minha vida em que eu cresci muito como cristão. Eu me lembro que aquela foi uma época complexa para mim, eu era muito jovem, muito confuso, eu queria fazer muitas coisas – quando a gente é jovem, a gente está na nossa época de maior potencial, você pode ser o que quiser, mas, ao mesmo tempo, você está tão confuso que fica com medo de não virar nada.

Eu me lembro que estava em uma dessas partes da minha vida, confuso, e com dificuldades no meu ministério, eu não conhecia muito a Bethel, um dos meus discípulos me apresentou, eu encontrei o álbum que tinha No Longer Slaves e eu comecei a ouvir o dia inteiro. Nessa época, eu ouvia essa música e orava sem parar, umas três horas por dia – saudades, queria ter tempo de orar três horas por dia, risos. Eu realmente me aproximei de Deus, mudei muitos conceitos errados que eu tinha sobre quem Deus era e o seu relacionamento comigo, sobre quem eu mesmo era no Reino e no mundo, eu aprendi que não havia um limite para que eu me aproximasse Dele. Nunca ia chegar um dia em que eu estaria tão próximo que eu poderia parar de busca-Lo, parar de me parecer mais com Ele. O amor Dele é como um oceano imenso, eu nunca conseguiria viver o suficiente para chegar até o seu fim.

Quando eu percebi isso, junto com a música, eu percebi que eu não precisava ter medo de nada, toda limitação era muito irrelevante, que o amor de Deus sempre estaria ali por mim, tudo dando certo ou não. Isso me permitiu sonhar. Deus me ama tanto, que se o que eu estiver sonhando faz parte dos planos Dele vai dar certo, e se não, foi o melhor. A falha é insignificante. Eu não preciso ter medo de sonhar.

Os sonhos que a gente tem medo de tentar, porque são grandes demais, eles são pequenos diante de quem é o nosso Deus.

Se há uma coisa extraordinária dessas, como o criador do universo querer um relacionamento de intimidade comigo, então qualquer outro sonho na nossa vida é muito pequeno e cabe na palma da nossa mão. É fácil sonhar. Nós não temos nada a perder.”

 

As pessoas têm tanto para jorrar de Deus em nós. Elas são pedaços do Deus vivo esperando para serem manifestos.

E isso me faz querer escrever ao redor dos meus cadernos para sempre.

Este é fim do nosso jogo O Espírito que vive dentro de três incríveis pessoas que conheço, mas, quem sabe, é o começo de outros novos cinco anos.

Obrigada por estar comigo, leitor. Obrigada por ser a mão invisível que me balança para o braço mais poderoso que já existiu. Eu apenas espero que possa fazer o mesmo por você.

Um abraço amassador de costelas,

Nat.

 

Por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus.

Romanos 8:19