Arquivo mensal: julho 2018

Vermelho-marte

{Para ouvir enquanto lê}

Eu não costumo ganhar muita coisa de graça na vida, a maioria delas vem com um bocado de água – suor, lágrimas, pode escolher o grau de sal favorito -, então, quando eu te percebo em mim, tão gratuitamente bom, eu fico paralisada. Como estou agora, enquanto estudo e olho para fora da biblioteca.

Depois da janela de vidro, onde encaro, há uma árvore cujas folhas começam a secar, o sol bate sobre todas elas – espalhando um brilho vermelho amarelado – e é como se cada uma daquelas coisinhas ressecadas fosse Marte, comportando bilhões de tonalidades de vermelho, comportando o próprio Deus vivo.

O universo está cheio de você. Completamente cheio de você, Deus.

Eu fecho meus olhos com força, procurando a eternidade e a noção de não sofrer. Nela não há preocupações passageiras, mas há a intoxicante certeza de que todas as folhas cairão, Marte e todos os planetas virarão contas do seu colar, todo o tempo escrevendo e decorando doenças e alterações desaparecerão e só sobraremos nós dois e o indecifrável sentimento de que você é gratuitamente bom.

Meus olhos se descolam e eu espero o momento em que você vai me pedir para chorar e suar e chorar e suar, como absolutamente tudo o que faço na vida, mas o sol sai de trás da árvore-planeta e esquenta minhas orelhas.

Seu amor é quente.

Não porque não haja lágrimas e suor e muito mais água para ser perdida durante a vida, mas porque Yeshua, porque você, Yeshua, venceu o mundo sendo gratuitamente bom. Você me deu a eternidade, que é gratuitamente boa. Você é a graça gratuita. Tudo o que você é é bondoso.

Pisco.

Uma

     lágrima

           cai sobre o livro de patologia e o general de Israel cai sobre mim.

Aleluia, Cristo pagou tudo para que eu me assustasse com o que é de graça.