Arquivo mensal: outubro 2017

Alguns dias, a misericórdia do Eterno parece um beijo de um desconhecido em sua namorada, em um episódio escrito pela Shonda Rhimes (em um em que ela esteja proibida de matar qualquer personagem)

Este é um post com um texto dentro do outro e, por isso, com duas músicas.

Um beijo,

Nat.



{Para ouvir enquanto lê (1)}

É muito fácil odiar a humanidade.

Os motivos são incontáveis.

Todas as semanas milhares de novos motivos aparecem. Milhares de motivos frescos e coerentes.

Eu me lembro de quando trabalhava em uma redação de jornal online de madrugada, cada um desses motivos borbulhavam em mim. Aquele foi um período difícil. Eu odiava noticiar tudo o que escrevia. Eu odiava ligar para a polícia e fazer a “ronda” de todas as coisas horrendas que o ser humano havia conseguido fazer em um único dia. E no outro dia todo o mal começava de novo.

Um dia, quase meia noite, eu recebi a notícia de um estupro terrível na minha caixa de email. Apenas assim. Acima daquele email estava outro email bobo de uma amiga que fiz em um site de conversação em outras línguas. Ela estava me pedindo indicações musicais em português e me perguntando sobre o clima. E bem ali embaixo, bem ali, estava um release da assessoria de comunicação da polícia, explicando que eles haviam acabado de prender um homem que vinha abusando sexualmente de uma menina há anos. Os detalhes. As minucias da crueldade humana.  Eu corri para o banheiro. O jornal não tem quase ninguém durante a madrugada, por isso o barulho dos meus sapatos contra o azulejo soou tão alto quanto um insulto. Eu me tranquei ali, entre a pia e a porta, por uns dez minutos. Tentando não chorar, ou pelo menos tentando não chorar muito.

É incrivelmente fácil odiar a humanidade.

Nesta última semana, o Brasil se perguntou algumas vezes se era possível sentir algo diferente de ódio por toda a nossa raça. Confesso que não tem sido simples. Os jornais mostraram notícias tão terríveis que as pessoas nem tem coragem de transformá-las em conversas banais no elevador ou no ponto de ônibus.

Ninguém ousou dizer “Você viu aquilo no jornal?”. Todo mundo viu e todo mundo estava tão profundamente chocado que até os “bom dia” foram silenciados.

Sempre que algo assim acontece, eu pergunto para Deus como Ele pode nos amar. Como ele pode achar em nós o seu folego depois de termos sido soprados por tanta maldade.

E o texto que vem agora – uma colagem do meu dia-a-dia – é uma resposta ao amor que Deus tem derramado em mim por tudo que está a minha volta e uma carta de amor por Goiânia, que não é o que os jornais dizem. Que não pode ser apenas o que os jornais dizem.

{Para ouvir enquanto lê (2)}

Eu acordo cedo.

E comigo acorda a cidade.

As crianças choram no ônibus. Há tanta vida naqueles pulmões e melodia na cadência do seu choro.

Ainda está muito cedo. Eu cruzo o centro de prédios apertados e vendedores ambulantes. Eles gritam e me oferecem água.

“Dois reais, moça”

“Obrigada”, sorrio.

Por que cada um deles tem um tom de voz desenhado especificamente e unicamente para ele.

E por mais bobo que pareça, sei que o Eterno ama ouvi-lo.

“Olha a águaaa”, o vendedor continua oferecendo. E eu sei que aquilo é poesia para o Senhor. Porque Ele desejou as nossas pregas vocais. Ele nos fez gritando por coisas. Nós ainda gritamos por coisas terrenas, mas Ele espera pelo dia que gritaremos por coisas eternas. Pela única e verdadeira água da vida.

Há trafego e espera na cidade.

Mas as coisas de Deus também pedem por espera.

Há Ipês roxos se abrindo, há sol, há calor que faz uma gotinha de suor desavisada dançar nas costas do menino rindo na porta de casa.

“Deixa eu levar sua sacola”, uma mulher diz para a senhora, enquanto aperta a botoeira e o sinal fecha.

Risadas escandalosas no banheiro da faculdade.

Deus ama o nosso senso de humor.

Gente correndo no fim da tarde, em um parque verdinho. Os seus pés batucam o chão em um ritmo celestial. E eu imagino os anjos dançando break.

Os professores fazem poesias enquanto explicam como uma célula cardíaca é capaz de excitar a outra, e acreditando ou não no Eterno, eles explicam como as coisas Dele são incríveis.

Há um moço na livraria, ele me convida para tomar café e explica porque eu não deveria comprar o livro que queria e deveria comprar o livro que ele estava lendo. Eu rio. Porque Deus adoraria estar ali, no meio daquela discussão, falando sobre escrita, porque Ele é toda a criatividade que existe. Ele é a Shonda Rhimes dos plot twists (sem as mortes dramáticas hahaha).

Eu faço o jantar e bato nos cantos das panelas, tentando acompanhar a minha música. Obviamente, meu molho pula no fogão. E eu posso sentir que o Eterno está ali, dizendo “nós limpamos depois de terminar esse refrão, está quase ficando como eu espero”.

E ele ri de mim no dia seguinte, porque meu colega de apartamento não avisou que a resistência do chuveiro queimou e eu abri a água com tudo em cima da minha cabeça.

“FSDJFHWOHORHEDFAJSDF?!!!!!!”, berro algo que não existe em português, dentro do banheiro. A água estava uma pedra de gelo.

Ele gargalha.

E ri mais ainda quando me vê vendo tutoriais de como arrumar a resistência do chuveiro sem saber direito sequer como abrir um chuveiro.

E um outro dia começa.

E com ele todas as coisas que o Senhor ama sobre a gente. Ele nos diz que vai nos dar uma nova oportunidade. E isso, isso é misericórdia nova e fresca.

E lá vamos nós de novo, cruzando a cidade. Cheia de gente.

Gente que o Eterno ama.

Gente pela qual o Eterno mandou o seu filho.

Crianças rodando seus spinners.

Velhos comprando seus jornais.

Estudantes exaustos dormindo nas cadeiras dos ônibus.

Um moço de camisa roxa beijando sua namorada como se estivesse prestes a ir para o exílio.

O Eterno nos ama.

Não porque somos bons, mas porque nós somos Dele.

E isso, bem, isso faz toda diferença.

Querido JoelFig, eu não te conheço, mas obrigada

{Para ouvir enquanto lê}

 

Depois de passar o dia na biblioteca da universidade estudando, fui para o ponto de ônibus e ele não passou na hora que deveria. Novidade…

“Eu odeio poucas coisas como o 105, Deus…”, pensei.

105, o ônibus que se atrasa, está sempre cheio e é impossível de se escapar.

Então, eu comecei a abrir coisas aleatórias no meu celular, curtir fotos de amigos dos quais tenho saudades todos os dias, comecei a me perguntar porque a vida nos dá tantos pratos para girar ao mesmo tempo e como seria bom deixar alguns caírem para ver todos esses amigos todas as semanas.

E bem… foi mexendo aqui e ali no Instagram que eu achei. Eu achei. Sim, eu achei.

“O que pelo amor de Deus?!”, você me pergunta.

Bem, eu achei um dos melhores blogs que eu já li em muito tempo.

Sério.

Eu não tinha pretensão nenhuma naquele dia: eu só precisava chegar em casa, tomar um banho, estudar um pouco mais. Mas eu fui invadida pela presença de Deus. De uma forma intensa.

Enquanto eu lia um dos melhores textos que li em eras sobre o Eterno, a maior chuva de todas começou a cair.

As pessoas do ponto de ônibus começaram a reclamar, agarrar as suas mochilas, começaram a a se amontoar no centro do lugar, tentando ficar o mais longe possível do temporal gelado. E eu? Eu estava ali, feito uma maluca, tomando chuva. O vento fazia meu cabelo dar piruetas, as gotas respingavam no meu celular, e eu tentava não chorar ou rir muito alto.

Deus pode nos encontrar das formas mais incríveis. Como o autor do blog escreveu: He is a wild thing.

Eu e o cara mais incrivelmente selvagem que eu conheço nos molhamos  e entramos sorrindo no 105, coisa que as pessoas não costumam fazer naquele ônibus.

E qualquer um que me visse naquele dia sabia que eu era só Dele e Ele era só meu.




Por favor, leia esse blog: Joelfig 😉

O seu rugido é minha canção favorita

{Para ouvir enquanto lê}

“Você não sabe o meu tamanho. Não há como você me mensurar. A sua mente não consegue. Você continua me colocando em pequenos espaços, esperando que eu faça pequenas coisas. Mover montanhas de um lado para o outro é pouco. Você não sabe o meu tamanho. ”

Enquanto Ele falava, cordas caiam de um leão que parecia estar atado. E o leão crescia. Crescia. Crescia. Sua juba se tornou selvagem, seus olhos brilhantes, havia vida, vida violenta, em cada um de seus pelos.

Ele continuou:

“Você não entende ainda. Eu sou pai, mas não sou apenas pai. Eu sou o Leão da Tribo de Judá. E as cordas do seu entendimento nunca poderão me segurar. ”

O leão rugiu e tudo pareceu incrivelmente minúsculo perto do som de sua voz.

 

 “E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos.”

Apocalipse 5:5



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