Arquivo mensal: setembro 2017

Omelete (ou: Eu queria ser um escorredor para que as costas do Eterno se apoiassem em mim)

{Para ouvir enquanto lê}

Eu abro os olhos, e com a voz rouca, mal mal audível, tateando pela cama a procura dos óculos – eu tirei os óculos, certo? Será que eu dormi com eles?! Não, não, eles estão aqui, do meu lado -, encosto os pés no chão de madeira, passo os dedos pelas minhas costas, respiro em voz alta:

– Bom dia, Deus.

E Ele está ali. Todas as manhãs.

Fazemos café juntos.

–  Hoje acordei na hora, vai dar tempo de fazer omelete. – Explico a Ele.

Sentamos nós dois na mesinha da cozinha da minha avó – onde eu fico durante a semana. Só há uma cadeira de ferro, mas ele traz um banquinho do céu. Brilhante como Ele.

Eu corto os ovos. Nós mastigamos.

il_570xN.874872859_3i2xE tudo parece sincronizado. Eu falo. Ele responde. Eu faço silêncio. Ele cantarola. Eu lavo as vasilhas do café, Ele espera ao lado da pia. Suas costas ali, quase tocando o escorredor. E eu penso: que escorredor sortudo. E, antes que eu termine de pensar, Ele ri, porque sabe que eu espero pelo dia que os seus dedos vão me alcançar e eu sentirei.

Agora em parte. Mas, no futuro, conhecerei a Ele como também sou conhecido.

E nesses dias, em que o café da manhã parece uma propaganda oficial do céu que está por vir, eu desejo, do fundo de mim, que eu nunca o entristeça.

 

 

 

Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face;
1 Coríntios 13:12