Arquivo mensal: setembro 2016

Digliconato De Clorexidina

{Para ouvir enquanto lê}

Eu te agarro em um abraço, Deus, porque só você cabe em mim. Só você sabe de mim. Só você é o meu merthiolate.

– Vai arder? – Pergunto, espremendo os olhos.

E você cai sobre mim, devagar feito confete em dia de sorrir por motivo nenhum, mais como chuva do que como remédio ardido. Mas cura. No seu tempo. Do seu jeito.

“Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados”

Mateus 5:4



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Este é só um texto

{Para ouvir enquanto lê}

Cem por cento das vezes: humanos.

Não há oração que nos faça outra coisa senão seres de carne.

Não nos tornamos anjos assim que abrimos nossos olhos. Nossos problemas não desaparecem como mágica, ainda somos gente que acha um monte de coisa besta engraçado, que não sabe o que fazer com a decisão de amanhã, que fica fazendo caminhos de ônibus na cabeça para tentar pegar um mais rápido e com menos pessoas (por mais que a gente saiba que essas coisas são grandezas inversamente proporcionais).

Este não é um texto sobre a beleza das coisas, não tem poesia da Adélia, não tem reflexão profunda, palavras em grego, piadinhas de pavê. Este é só um texto para dizer: nem sempre tudo vai bem. Mesmo que você ore muito por isso e que seu coração saia pelos joelhos nas madrugadas. Nosso clamor é muito poderoso sim, mas nunca mais que o Senhor. E, às vezes, nada especial acontece depois de uma noite de nariz vermelho e de composições amassadas na beirada da cama.  Não, não fizemos nada de errado. Não, Deus não nos odeia. Nós somos homens e só nos resta a vontade do Eterno. E a resposta vem quando Ele quer.

Contudo, a beleza de continuar orando nem sempre –  nunca! – está nas coisas que se recebe a partir dela. O clamor escala nossos músculos e nos vivifica. Depois de orar, muitas vezes nada parece ter mudado no mundo que posso ver e tocar, mas o meu coração mudou. De coração novo, eu enxergo minha carne – tão humana, tão perecível – mas revestida Dele. De repente, eu sou como a arca, sou feita de acácia, mas coberta de ouro.

Cem por cento das vezes: humanos. Cheios de coisas insolúveis para solucionar até o final do expediente. Todas as cem vezes coberta por Ele.

Nem sempre tudo vai bem, mas minha alma está segura.

E virão ali, e tirarão dela todas as suas coisas detestáveis e todas as suas abominações.
E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne;
Para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os cumpram; e eles me serão por povo, e eu lhes serei por Deus.
Ezequiel 11:18-20



Leia também (versão velharias deste blog):

Já dizia Fernando Pessoa: “O mar é a religião da natureza”



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Eu preparo o chá que iremos tomar em nossa nova casa, Deus, quando finalmente o meu espírito vir o Seu

{Para ouvir enquanto lê}

Eu queria muito vê-Lo. De verdade. Não é uma frase de música. Eu realmente queria poder segurar sua mão hoje, saber o formato do seu nariz, estar com você face a face. Testa com testa. Nem que fosse por um milésimo. Eu sinto uma saudade esquisita de te enxergar. Eu que nunca te vi com os olhos da terra. Meu amor parece furioso e eu choro algo doído no fundo de mim. Um choro azul. Eu te amo tanto. Eu queria tanto te ter fisicamente em meu quarto quando oro. Eu te imagino e não é suficiente. Nada é suficiente. Mesmo que você abunde dentro de cada pequena parte da minha alma, mesmo que eu me afunde em sua bondade, mesmo que eu engula toda a sua misericórdia, mesmo que eu contemple sua presença por horas. Eu não posso ser cheia o suficiente. Eu não paro de pedir por mais. Eu não entendo. Não consigo fazer um texto com parágrafos e pontuação. Eu apenas te quero. Te quero com a força de uma multidão que grita. Com a intensidade de rios que se encontraram. Com a saudade de quem não volta para casa há meses. Por favor, por favor, me dê mais. Por favor, fale comigo a noite inteira. Não pare! Me conte todas as suas histórias, nomeie todas as estrelas, choque-se sobre mim. Meu melhor amigo, me fale das coisas da nossa nova casa; meu pai, vamos orar por Jerusalém juntos; meu espírito favorito, vamos cantar! Aba, não se afaste de mim, basta um segundo e eu gritarei: venha, amado, eu sinto saudades.

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Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
1 Coríntios 13:12



Leia também:

04 da manhã (ou: Contando planetas para dormir)



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Esaú era um bebedouro (ou: Trocando meu nome e ganhando marcas de Cristo)

{Para ouvir enquanto lê}

Eu tenho um problema sério com bebedouros.

Eu me aproximo respeitosamente, aperto o botão antes de me abaixar, analiso o alcance da água, faço contas muito complexas e gráficos invisíveis para saber o quanto posso me aproximar sem que um jato de água atinja meus olhos. Mas, quase todas as vezes, eu erro minha própria boca. É idiota, eu sei. Não dá para evitar. E aí eu me vejo olhando ao redor e me certificando de que posso secar meu nariz.

Como tenho passado muito tempo na biblioteca da faculdade e, quase sempre sem garrafinha, me pego pensando mais do que gostaria de admitir:

– Quem inventou o bebedouro era o pior jogador de Angry Bird.

Contudo, entre ficar com sede e t1242356155er que secar o nariz, eu seco o nariz.

E volto revirando os olhos para minha mesa.

Uma. Duas. Quatro vezes.

E você me pergunta porque diabos estamos falando de bebedouro e eu, chorosa, espero que você entenda que este post não é sobre água no meio das sobrancelhas, mas é sobre se encontrar com Esaú pela primeira vez em muitos anos. É sobre mandar presentes que cheiram a medo. Sobre receber um novo nome.

Jacó – sim, aquele que vestiu uma capa de pelo para enganar o pai, fingir que era seu irmão, roubar sua benção, depois de ter se apossado da sua primogenitura e toda aquela história da sopa de lentilhas que a maioria de nós conhecemos –, ele estava com medo. Eu consigo imaginar seus olhos abertos. O coração indeciso: ele deveria voltar a falar com o irmão? O irmão que tinha todo o direito de odiá-lo?

Deveria?

Esaú era o bebedouro de Jacó.

Quando finalmente seu coração se enche de certeza e ele decide ir até ele, uma notícia: seu irmão já estava vindo, mas tranquilo, somente com mais 400 homens.

  1. (   ) Own, já está trazendo pessoas para a festa surpresa que vai me dar.
  2. ( x ) Eita.

Jacó se apavorou e mandou presentes na sua frente, e tentou resolver seus problemas como o homem que era. Enganador.

E direis também: Eis que o teu servo Jacó vem atrás de nós. Porque dizia: Eu o aplacarei com o presente, que vai adiante de mim, e depois verei a sua face; porventura ele me aceitará.
Gênesis 32:20

Mas havia uma noite entre Jacó e seu bebedouro.

Se você já leu essa passagem algumas vezes na Bíblia – e já cantou Jacó-segurou-o-anjo-amarrou-o-anjo-e-não-deixou-ele-subir – sabe que essa é a hora em que ele e um anjo se enfrentam e o, até então, enganador é ferido.

Eu não sei você, mas eu já me perguntei o porquê, do mais absoluto nada, desceu um anjo para dar uma surra tão grande em Jacó que durou a noite toda. E justo ali, naquele momento cheio de angústia, em que Jacó tinha quase certeza de que Esaú não iria perdoá-lo. “Bater em cachorro morto”, os mais velhos diriam. Como se aquilo não fosse jato de água gelada o suficiente no nariz, o anjo o deixa manco.

Jacó, porém, ficou só; e lutou com ele um homem, até que a alva subiu.
E vendo este que não prevalecia contra ele, tocou a juntura de sua coxa, e se deslocou a juntura da coxa de Jacó, lutando com ele.
E disse: Deixa-me ir, porque já a alva subiu. Porém ele disse: Não te deixarei ir, se não me abençoares.
E disse-lhe: Qual é o teu nome? E ele disse: Jacó.
Então disse: Não te chamarás mais Jacó, mas Israel; pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste.
E Jacó lhe perguntou, e disse: Dá-me, peço-te, a saber o teu nome. E disse: Por que perguntas pelo meu nome? E abençoou-o ali.
E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva.
E saiu-lhe o sol, quando passou a Peniel; e manquejava da sua coxa.
Gênesis 32:24-31

Queria que a resposta para essa pergunta tivesse surgido nas minhas caminhadas mesa-bebedouro, daria uma boa parte para o texto, mas não surgiu. Eu voltei a pensar nesta passagem agora a pouco, fazendo aqueles questionamentos para Deus: porque a gente tem que enfrentar algumas coisas de novo?

No post tudo parece menos enfático do que na vida – cheia de baba e Amanda Cook gritando nos fones.

A vida é cíclica.

O quê, Deus?!

Faço silêncio.

A vida é cíclica.

E aí eu me lembro de Jacó. E me lembro do bebedouro. E de Jacó de novo, mandando bois e desculpas para seu irmão. E do bebedouro mais uma vez. E agora Jacó estava lutando com um anjo. Água gelada. E o anjo o marca. Pingando e escorrendo pelo nariz. E o nome de Jacó não servia mais.

Pronto.

– Pronto o quê? – Você me pergunta.

Bem, o nome de Jacó não servia mais. E se ele não houvesse percebido isso antes de encontrar seu irmão, talvez houvesse morrido na mão de algum dos 400 homens que vinham com Esaú, talvez tivesse fugido – voto nessa opção, porque Jacó era esperto demais para morrer depois de um aviso. Mas, se não morresse, ele apenas estaria adiando um encontro que precisaria acontecer. Porque? Porque a vida é cíclica, e Deus, muitas vezes, nos joga dentro do antigo vórtice para que ele seja finalizado.

Veja bem, Jacó fechou vários vórtices durante a vida – pode prestar atenção, o cara está sempre voltando atrás e encontrando gente que fez muito mal a ele -, e depois do fechamento a vida seguia em frente. Finalmente.

Isso parece bastante com a gente, não acha?

A diferença é que muitos de nós estamos sempre girando e girando dentro de ciclos de ressentimento, dor e medo. Enviando presentes e não trocando nossos nomes. Nós só conseguiremos parar de temer nossos bebedouros – as partes em aberto de nossas vidas -, quando conseguirmos fechá-las, e para fechá-las é necessário ser alguém novo, alguém que carrega uma marca do Eterno. Se Jacó ainda fosse o enganador, Esaú não teria o acolhido, mas Jacó era Israel e ao vê-lo Esaú não reconhecera mais aquele que tinha causado tanta dor. Israel era o irmão amado. Israel era o irmão que havia deixado saudades.

Algumas marcas de Deus nos fazem tão diferentes que poderíamos até mesmo trocar de RG. Algumas nos fazem mais pacientes, outras mais esperançosas.  Recentemente, Deus mandou um anjo MMA até mim. Não é necessário enxerga-lo ou ficar manco, mas eu sabia que aquela era minha noite escura, sozinha e cheia de uma expectativa medrosa.

Porém, pela manhã, eu tinha um novo nome. Um nome de sílabas somente pronunciáveis por Ele, um nome que significa que não preciso mais resolver tudo sozinha, o meu braço não precisava ser tão duro, não… Eu recebi um nome bonitinho e maravilhoso: filha. Ser filho é poder pedir. Ser filho é poder ser cuidado. Ser filho é não ter que saber de tudo, mas saber que há alguém que sabe. Ser filho é ter o coração mole e cheio de desenhos na geladeira que digam: eu e meu pai.

 

Então Esaú correu-lhe ao encontro, e abraçou-o, e lançou-se sobre o seu pescoço, e beijou-o; e choraram.
Gênesis 33:4

 

Eu imagino por quantos segundos Jacó e Esaú se abraçaram. O novo coração de Israel pulsando no ritmo manco de sua perna. Esaú finalmente deixando sua posição de enganado. Homens completos, porque um novo ciclo se abria.

Jacó enfrentou diversos vórtices depois desse – alguns só seriam fechados no Egito -, e, assim como nós, precisou aprender com cada um deles, porque (1) a vida é cíclica, (2) a Bíblia não é sobre facilidades e (3) as noites, muitas vezes, são mais escuras do que planejamos, mas, se há algo que traz alegria para meu nariz molhado diariamente pelo bebedouro é a esperança de um dia encher a boca e dizer o que Paulo escreveu em Gálatas: porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus.



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Aquele dia que Paulo pregou tanto que um cara literalmente caiu morto de sono



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Para Elisa, quem eu não conheço, mas conheço

– Você é o mundo, Elisa. – Um homem diz na mesa da frente. E eu, cortando um pedaço do meu lanche, tento concordar baixo o suficiente para que ele não me ouvisse e alto o suficiente para que o universo concordasse.

Você é o mundo, Elisa. Tudo foi feito para caber em você.

E vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas as coisas.
1 João 2:20


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Eu, você, um bandeirante (e um cachorro?)

{Para ouvir enquanto lê}

– Eu poderia conversar com você para sempre. – Digo em voz alta, ainda de pijamas, às seis e oito de um domingo. O sol começa a cair e eu me sinto cheia. Boba. – Eu poderia subir nos prédios e gritar o seu nome. Não… Eu poderia subir no Anhanguera, no meio do rush, e gritar que eu te amo…

Sorrio.

– E, mesmo se eu gritasse forte o suficiente para perder a voz, mesmo que eu berrasse tanto que esquecesse as palavras, ainda sim eu te amaria menos do que você me ama. Como isso é possível?!

O sol pinta as nuvens devagar e eu desisto de usar as palavras, porque as declarações Dele estão em todos os lugares. Até no laranja do céu.

Ananhanguera


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