Arquivo mensal: julho 2016

04 da manhã (ou: Contando planetas para dormir)

{Para ouvir enquanto lê}

Eu ainda não tenho uma fé inabalável.

Às vezes, eu não consigo dormir. E por mais que pense em todos os planetas, eu ainda estou acordada. Piscando. Existindo dentro da minha cabeça.

Me sento na cama e penso nas verdades irrevogáveis da vida. Penso no meu cabelo para lavar. Penso em Kierkegaard. E eu tenho medo.

Tento imaginar meu pai esperando para ser operado e me pergunto se ele teve medo. Saturno gira ao redor de mim, orbitando minha cabeça, e eu ainda estou acordada. Tendo medo.

Eu tento sacudir a cabeça – desculpe Saturno – e esquecer tudo que não for estritamente necessário para dormir, mas sinto culpa pelo medo. Eu não devia me sentir como todas as quotes cristãs de Instagram?!

Mas eu não me sinto. Não há uma imagem tratada de alguém contemplando uma paisagem que envolve árvores gigantes ou montanhas com picos cheios de neve e uma bela mistura de fontes aqui. Só estamos eu e minhas muitas perguntas sobre o que é ter uma fé imutável, mesmo que ela seja pequena como uma partícula de poeira.

Não, eu não acho que nossa vida cristã é feita de quotes. De frases de efeito. Apenas de comunhão e pizza depois do culto. A vida cristã é, muitas vezes, extremamente difícil. Principalmente aquela que você precisa enfrentar sozinho. A vida cristã, alguns dias, é apavorante. Se você já teve que realmente amar seu inimigo, você sabe. Se você já teve que abandonar seus planos para seguir a Jesus – mesmo que ninguém saiba ou te dê uma medalha por isso -, bem você sabe. Quando você vê alguém doente e não pode fazer absolutamente nada por ele, você sabe.

O evangelho que você vive, que não pode ser medido pelos olhos das outras pessoas, nos pede muito. Ninguém vê. Ninguém sabe. Mas, muitas vezes, ele está pedindo tudo o que você é. E você não dorme. Para de contar planetas. Você ora por fé. Porque é ok ter medo, é ok não ser um pôster ambulante de “tudo já deu certo, em nome de Jesus”, mas, acima de tudo, é ok pedir por fé e força.

Nós não enganamos a Deus com nossas exortações meia boca, mas, eu creio, que o comovemos quando tudo o que pedimos é que Ele nos ajude com a insuficiência de nossa fé.

E é nessa hora que nós vamos para frente ou morremos. Morremos acordados por noites seguidas ou entendemos que a fé que temos é suficiente para começar a viagem. Que Ele é dono de toda a fé que podemos possuir, um dono doador.

Eu fecho os olhos, deixo os planetas irem e imagino Pedro dando alguns passos na água e não consigo me concentrar no fato de que, em algum momento, ele começou a afundar. Concentro-me nos segundos completamente livres de qualquer “e se”. E, então, consigo dormir.

planets


Se você quiser ler mais textos sobre medo escritos por aqui (alguns – ALGUNS -mais felizes hehe):

O oposto do amor é o medo (ou: O povo de Israel e a sandália da Xuxa) – 2013

Não sei se você notou, mas eu ando falando sobre amor (ou: Amor x Medo) – 2015

Um post dentro do outro (ou: Sem medo do nariz escorrendo) -2015




Esquema de sempre: você pode me encontrar através do meu email (nataniacarvalho@gmail.com), da página do blog no Facebook, ou do meu Instagram =D
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Baiacu (conto #1)

Você pisca e está acordado. Mais uma vez e está sentado, olhando diretamente para  uma pessoa sem saber o que ela está falando. Talvez esteja reclamando do marido, que nunca lembra de pagar a fatura em dia e aquele um real e sete centavos da multa a tire do sério. Talvez esteja falando do tempo. Você pisca e a boca dela parece duas ondas se encontrando distantes no oceano.

Oceano.

Você faria tudo para mergulhar. Nunca tentou. Já viu milhões de pacotes no aplicativo de descontos que baixou, mas se planejar para mergulhar significa realmente colocar no papel o quanto ganha, e você ganha pouco não quer colocar no papel o quanto realmente ganha. Então faz o que todo mundo faz quando não pode comprar as coisas: procura por elas na internet.

A mulher continua falando com você por trás da tela do seu computador, mas você não está resolvendo o que é que ela tenha vindo pedir, você está digitando no google: mergulho para iniciantes. Aparece um vídeo do youtube, você não pode colocar fones, então muda para a página de imagens e uma delas te chama a atenção… um mergulhador no meio de uma água esverdeada. Não há peixes, algas coloridas ou barulho. Tudo parece fazer silêncio. Exceto pelas bolhas que saem do seu respirador.

Glup.

– Ei?! – A mulher grita, estralando os dedos na sua cara. Por um segundo ela parece um daqueles peixes que inflam – qual é mesmo o nome deles? -, alguns segundos depois parece Salomão recitando mentalmente o que já escrevera: tudo é vaidade e aflição de espírito.




Hey, esse texto não é como os que costumo postar, relatos pessoais, crônicas e textos opinativos, esse texto é um conto. Ou seja:  eu não googlo coisas inapropriadas no horário do trabalho (quer dizer, alguns memes no horário de almoço quem nunca? hehe). Isso dito, seguimos o esquema de sempre: você pode me encontrar através do email (nataniacarvalho@gmail.com), da página do blog no Facebook, ou do meu Instagram =D

Empatia tem gosto de pão quentinho na chapa

{Para ouvir enquanto lê}

Eu imagino Cristo tomando os nossos pecados, dores e enfermidades na cruz.

Seu rosto se contorce ao presenciar um dos piores dia da minha vida. Ele engole seco. Eu estou sentada na cama. Minha versão de oito anos, sete talvez… Ele sente o buraco azul se abrindo em meu peito. Ele começa a respirar fundo. Como eu fiz.

Ele sente os abusos domésticos a que centenas de brasileiras são submetidas. O marido de uma das suas mulheres se aproxima e o tapa ressoa em sua face. Jesus se assusta. Se apavora.

Sua pele queima por doenças ainda desconhecidas em seu tempo. Seu coração se despedaça e o braço adormece, era o infarto do meu pai ali. Aquele homem que comia peixes, pão e um bolo feito de azeite infarta como um de nós que devoramos um hambúrguer por semana.

Ele se sente sozinho. Com medo. Por que nós nos sentimos sozinhos e com medo. Ele nos conhece por dentro. Ele divide nosso fígado e nossos sentimentos. E, enquanto isso, sangra sobre um pedaço de madeira.

Jesus é a própria figura da empatia.

Mas nós? Nós não. Nós julgamos as pessoas por relatos. Nós preferimos ter razão. Tripudiar sobre o sofrimento do outro.

E Ele ressuscitou, brilhando pela glória de Seu pai, e nos chamou para fazer coisas maiores, mas nós julgamos. E fazemos textos imensos em nossas redes sociais cheios de ódio.

“A mão do Senhor vai pesar sobre essa geração”, eles escrevem na rede social azul.

Mas eu peço desesperadamente que não. Senhor, não pese sua mão sobre nós.

Eu tento imagina-lo em cima de uma rocha falando sobre amor, e eu me derreto. Choro feito criança. Fico boba. Eu me imagino ao lado da pedra e eu quero ser como Ele, eu quero amar, eu quero ter compaixão, eu quero escrever textos que falem do seu amor.

A justiça de Deus existe. É claro que sim. Mas há em nós alguma justiça ou temos escondido nossas vinganças atrás de passagens soltas das Escrituras?

É mais fácil julgar do que se compadecer. A compaixão produz em nós a pequena grande dor de se importar, e se importar, nos dias de hoje, é uma gota de mirra, um pão quentinho na chapa. Compadecer-se significa parar de olhar para você e sentir o que o outro está sentindo, não o que você acha que ele deveria estar sentindo. Compaixão é uma obrigação cristã, mas nunca uma obrigação religiosa.

Jesus teve compaixão deles e tocou nos olhos deles. Imediatamente eles recuperaram a visão e o seguiram.  Mateus 20:34

Tenho compaixão desta multidão; já faz três dias que eles estão comigo e nada têm para comer. Marcos 8:2

Ao vê-la, o Senhor se compadeceu dela e disse: “Não chore”. Lucas 7:13

Quando Jesus saiu do barco e viu tão grande multidão, teve compaixão deles e curou os seus doentes. Mateus 14:14