Arquivo mensal: fevereiro 2016

Porque mantemos o assunto abuso longe de nossos púlpitos?

 

{Para ouvir enquanto lê}

Durante os últimos dois anos, Deus tem trazido até mim  pessoas que lutam contra pensamentos suicidas ou contra a depressão em geral. E o blog tem um papel importante nesse contato. As pessoas, muitas vezes, se sentem mais a vontade mandando emails do que contando esse tipo de coisa. É aquele momento em que os olhos e a fala – ambos se arrastando para o chão – não conseguem acompanhar ou explicar alguns dos sentimentos mais profundos que temos e a escrita, ao contrário, parece ter um caminho direto e conhecido para aquilo que mais tememos dizer.

Sempre que um email desse tipo chega,  eu – que  não sou terapeuta e não tenho pretensão de agir como uma -oro e falo de um lugar muito pessoal.

Ao longo do tempo, percebi que a maioria dos autores dos emails eram jovens que já conheciam a Cristo há certo tempo e os conflitos, geralmente, nasciam de uma situação abusiva. E eu fiquei me perguntando: como temos ajudado essas pessoas dentro de nossas igrejas?

Muitas vezes, nós não temos.

Minha maior ajuda veio através de uma escritora cristã chamada Christa Black, que descobri através de uma aula da plataforma WorshipU, não veio do púlpito. E saber disso me deixou com raiva. O púlpito aqui é, claro, apenas uma metáfora para a igreja, que nada mais é do que as pessoas que caminham para o alvo junto com você.

– Deus, como nós não temos falado sobre abusos na igreja?!

Então, decidi escrever os que você está lendo. Porque o evangelho necessita que você aprenda que é amável e o abuso quebra essa ponte. Muitos dos emails traziam a mesma carga de sentimentos: “eu me sinto imperdoável, eu não posso ser amado”. A essência do evangelho é que alguém te amou tanto que veio, como uma espécie de segundo Adão, construir as pontes que o pecado abriu. No entanto, lá no fundo, quando nos sentimos deprimidos, ou quando não conseguimos nos sobrepujar sobre situações passadas, não conseguimos sentir esse amor e nos tornamos como cristãos que tem enormes buracos no peito e que se perguntam: Deus não deveria preencher exatamente essa parte do meu coração?

Falar sobre abuso é ensinar sobre culpa e vergonha e sobre como se livrar delas.

Veja, a vergonha é um motivador horrível para a liberdade, e não é a convicção do Espírito Santo. Lembre-se, é a bondade de Deus que nos leva ao arrependimento, não nossos próprias açoitamentos, mesmo se nós merecemos ser punidos. (Romanos 2: 4)

A tristeza segundo Deus produz arrependimento … não vergonha. Deus não recebe nenhuma glória quando você se mutila, mesmo se você realmente fez algo que te machuca, ou mesmo machuca aqueles que você ama. (Não entenda como permissão para o pecado … ..a Bíblia é muito clara sobre isso. Mas a Bíblia também é muito clara sobre a vergonha … e não temos permissão para viver na vergonha como crentes).
Vergonha afasta … ..mas amor aproxima.

Christa Black (tradução livre)

Nosso papel como igreja é ajudar nossos irmãos a ouvirem do Eterno coisas que quebrem este padrão de vergonha e culpa em suas vidas. Em seu blog, Christa conta que ia para o trono de Deus com profunda vergonha, esperando que Ele a recebesse como um juiz pronto para julgá-la da pior maneira possível: com as palavras que ela julgava a si mesmo. No entanto, “com lágrimas escorrendo pelo meu rosto … eu iria começar a ouvir o veredito do juiz: Justa. Piedosa. Sem culpa. Irrepreensível. Querida. AMADA. VIVA. Remida. LIVRE.”

Nosso papel como igreja é ensinar que uma mulher nunca terá culpa de ser abusada sexualmente, não importa a roupa que esteja usando, que um filho nunca será o responsável por ter sido espancado, que uma esposa não deve EM HIPÓTESE NENHUMA ser culpada por um casamento abusivo, e mais: ser aprisionada a ele, antes deve fazer cumprir o direito de denunciar seu agressor.

Nosso papel como igreja é ensinar que namoros abusivos ( em todas as suas formas: seja aqueles que te inferiorizam, que te fazem sentir louca, te fazem trocar de roupa, te fazem sentir que você não deve terminar, porque nunca arrumaria coisa melhor olha-só-pra-você, ou te obrigam a transar) e chefes que abusam moralmente de seus empregados não tomarão lugar em nosso meio! Nosso papel como igreja é tomar a mão de nossos irmãos e ajudá-los a irem a delegacia, é abraçá-los depois de uma sessão com um terapeuta que possa acompanhá-lo, é não deixar o responsável impune e, ainda assim,  ensinar sobre o perdão, é dar casa e leite quente quando houver medo de dormir sozinho.

Nosso papel como igreja é amar.  O mais incondicional amor que conseguimos oferecer. E o mais importante de tudo: nosso papel não é julgar a dor, a doença emocional ou os impulsos depressivos de nossos irmãos, se você não consegue apoiá-los, se torne, primeiro, igreja.

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Seja constante o amor fraternal.
Não se esqueçam da hospitalidade; foi praticando-a que, sem o saber alguns acolheram anjos.
Lembrem-se dos que estão na prisão, como se aprisionados com eles; dos que estão sendo maltratados, como se fossem vocês mesmos que o estivessem sofrendo no corpo.
Hebreus 13:1-3

 



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