Arquivo mensal: fevereiro 2015

“Deus gosta de aventura, mistério, de mudar as coisas ” (ou: último post de Janeiro, que já acabou)

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 Perdeu algum post de Janeiro? Olha eles aqui: 1, 2, 3 e 4


{Para ouvir enquanto lê}

Marcos é uma pessoa cheia de paciência.

– Calma lá, Natânia, quem é Marcos?

E se eu dissesse que eu também não o conheço pessoalmente? Pois bem! Andando por aqui e ali nessa internetcha de meu Deus, procurando coisas relacionadas ao ministério de missões e as formas de intercâmbio cristão, eis que eu encontro a página dele no Facebook. Curti a página (mas é claro, Natânia, vamos adiante com a história, menina) e sempre corria para lá para saber as atualizações de seu ministério. Um dia, vi que havia como receber uma newsletter com o que ele, juntamente com a igreja local, estavam realizando e eu, é claro, pedi.

Quando resolvi trabalhar com o tema de missões e intercâmbio aqui no blog, eu me lembrei do Marcos e, com o restinho da cara de pau que me sobrou depois de terminar a faculdade, eu pedi para que ele respondesse a uma entrevista. O Marcos não só me respondeu, como me enviou duas vezes, porque por alguma razão desconhecida do destino intergaláctico dos nossos computadores, a foto dele vinha beeem pequenininha e eu não conseguia enxergar nada (e nem era minha miopia). Maaaas, como diria a palavra, “o mistério que esteve oculto durante séculos e gerações, mas agora foi revelado aos seus santos” hahaha, eu mandei para um amigo abrir e era simples: o arquivo parecia ser de mac (tecnologia 2×0 Natânia).

E é por essa paciência do Marcos – de me mandar uma coisa mais de uma vez e esperar anos até dar certo – que vocês vão conferir uma das entrevistas mais legais do blog =)

Se você ainda não clicou na página do Marcos – (na verdade, nem sei se você prefere ser chamado de Marcos Vinicius, Marcos [Vinicius hahahaha]) -, ele colocou a mochila nas costas e foi levar o evangelho para Amarillo, Texas, nos Estados Unidos, através de uma iniciativa chamada Pais Project. Com 23 anos de existência, o projeto oferece treinamento e hospedagem gratuita para missionários jovens irem para Grã-Bretenha, Irlanda, Índia, Alemanha, Canadá, Gana, Estados Unidos (e Brasil). Para ser aceito, existe um processo de seleção, que eu vou deixar para o Marcos [Vinicius] explicar.

Este é nosso último post sobre o tema de janeiro, (gente eu sei que é fevereiro, calma, vou entrar em fevereiro no blog, eu juro!), e eu acho que você devia ler esta entrevista bem devargazinho aproveitando esse ar de missão lindjo que vem de Amarillo.

Nome: Marcos Vinicius Pires Santoromarcos

Idade: 23 anos

Profissão: Estudante

Em que cidade mora no Brasil/ Em que cidade vive atualmente: Vive em Amarillo, Texas, EUA, mas mora em Brasília, DF.

  • Como você conheceu o evangelho? Qual foi sua primeira grande experiência com Deus?

Eu, como muitos, nasci e fui criado na igreja, acompanhando meus pais aos domingos. A minha conversão foi um processo de conhecer e entender a palavra de Deus e o que Jesus fez por mim, por isso, digo que minha primeira grande experiência foi durante um acampamento dos Embaixadores do Rei (uma organização missionária que trabalha com meninos de 9 a 16 anos), no Acampamento Sítio do Sossego, no Rio de Janeiro. Foi um momento impar para mim, porque foi quando me entreguei para missões, foi quando senti no meu coração o desejo de fazer algo mais para Deus. Me batizei um ano depois.

  • E quando foi que você descobriu que queria pegar a mala e viajar para outro país pregando o evangelho?

Deus gosta de aventura, mistério, de mudar as coisas “em cima da hora”. Percebi que Ele fez isso comigo porque desde os 15 anos queria fazer intercâmbio cultural, estudar, trabalhar ou fazer qualquer coisa fora do Brasil. Mas tudo isso foi sendo abafado, ficando um pouco de lado por uns 4 anos; até que eu resolvi entregar meu sonho e desejo de viajar para Deus, e foi quando eu ouvi um “ah, agora sim!” haha. Foi quando comecei a orar para Deus usar isso para o reino Dele, que não fosse apenas para meu próprio benefício. Eu tinha 18 anos.

  • Como você conheceu o Pais Project?

Nesse desejo e procura por intercâmbios, meu pai comentou sobre a CESE Intercâmbio Cristão, mas no início nem dei muita bola, por ser caro, por estar terminando o ensino médio e coisas que aconteceram na vida. Mas aí, quando o fogo começou a arder novamente e estava me incomodando muito, eu voltei para o site da CESE e fui dar uma olhada nos intercâmbios, não deu 5 minutos e eu já vi o Pais Project, fui ler e os olhos já ficaram brilhando. A cada parágrafo eu me identificava mais e mais com o programa. Senti que era perfeito para mim. Tinha tudo que eu queria e tudo que senti que Deus queria me usar.

 

  • Depois de ter conhecido o projeto e sentido o desejo de ir, qual foi sua oração para Deus confirmar tudo isso? Houve um momento em que você sentiu o “caramba, é isso, eu tenho certeza que quero fazer missões” depois de orar sobre?

Já estava com o coração palpitante desde a primeira vez que li sobre o projeto, mas permaneci uns 2 anos em oração, porque a decisão não era fácil e eu teria que abrir mão de muita coisa! Orei para que Deus me mandasse no tempo certo. Eu tinha algumas coisas para resolver com Deus, com algumas pessoas e comigo mesmo. Eu sabia que não estava na hora ainda, eu estava sempre postergando a minha ida.

  • Agora vamos aos detalhes mais práticos que todo mundo que se interessa pelo assunto missões gosta de saber! Para participar do Pais você precisa enviar um vídeo, cartas dos seus líderes locais… Você pode explicar direitinho o que precisou fazer para se inscrever no projeto? (Inclua o que você falou no vídeo, porque a curiosidade é muita hehehe)

Hahaha chegou a parte hilária do intercâmbio. Bom, de começo eu precisei preencher um formulário grande, mas muito necessário, com perguntas pessoais, sobre a família, persguntas sobre minha fé, conversão, relacionamento com Cristo, trabalhos realizados na igreja, experiência em alguma área específica, etc. Junto com isso vem o vídeo (que para mim foi mais difícil que as 3 entrevistas juntas kkkkk), onde eu basicamente resumi o que coloquei no formulário. Eu tomei o gabinete do pastor, coloquei minha camisa do Jeremy Camp e gravei um bilhão de vídeos para juntar as “melhores partes” e fazer um só de 3 minutos kkkkkk. Ouvir o meu inglês quase me fez desistir. Imagine você que não gosta de ser filmado, não gosta da sua voz em vídeo, e ainda com o seu inglês, pronto!  Junta tudo isso! Kkkk Vergonha do meu vídeo!! Por isso não publiquei! Kkkkkk

A carta dos líderes foi muito tranqüila porque ambos me conhecem há muito tempo. Uma delas é a líder do Ministério de Missões da minha igreja, que sempre já fazia minha pré-inscrição em tudo quanto era evento ou viagem missionária, e com quem eu conversei muito sobre meu chamado e sobre o Pais. O outro foi meu pastor, que também acompanhou essa minha caminhada desde o início.

 

  • E a escolha do destino, Marcos? O Pais apresenta diversos países em que o futuro missionário pode atuar, como você decidiu para onde iria?

Acabei de conversar sobre isso com uma pessoa haha

Eu sempre tive vontade de vir para os EUA, a grande maioria dos estrangeiros que conheci e tive a oportunidade de traduzir, de fazer missões junto, eram dos EUA: Então, sempre me senti muito mais próximo e interessado em conhecer a cultura no dia-a-dia. Tive algumas oportunidades de ouvir testemunhos de alguns americanos que tinham algo relacionado ao período do ensino médio como um momento difícil na caminhada cristã. Ouvia também dos interesses e o que chamava atenção no Brasil e nos brasileiros, acho que tenho um pouco do que eles falaram e por isso vim com alegria mostrar isso através da minha vida aqui nos Estados Unidos. Influenciar positivamente os adolescentes do ensino médio para que eles tenham mais confiança e estejam mais preparados para a vida adulta durante a faculdade e pro restante da vida.

 

  • Há algumas pessoas que contratam agências de viagem – como a Cese, uma agência de intercâmbio cristão – para ajudá-las com as passagens, o visto, acomodação… Como foi o seu planejamento ainda no Brasil? Você fez tudo sozinho ou teve ajuda de alguma agência?

A CESE foi a culpada por tudo isso! Haha. Ela começou com a idéia, tinha que terminar! Kkkkk… Desde quando comecei a procurar por intercâmbio, eu estava em contato com a CESE, sempre foram muito atenciosos e dispostos a ajudar. Eles me ajudaram bastante na preparação, no que eu tinha que fazer e quando fazer (já que a ansiedade e o tanto de coisa que tem que pensar em fazer te consomem!). Skype para explicar detalhes do programa, saber como eu estava, como me preparar para viver um ano fora, etc. Eles foram fundamentais durante todo o processo 🙂

Valeu CESE!! 🙂

  • Momento-rufem-os-tambores, hehehe… COMO FOI CHEGAR AO SEU DESTINO? O que você ouviu ou percebeu de Deus nos primeiros dias? Eu pergunto, porque acredito que sempre que estamos no lugar em que Deus planejou para nós tudo flui de forma diferente, Ele fala de forma diferente…

No momento em que passei pelo embarque no aeroporto ainda no Brasil eu já pensei: “Eita, já era! Agora não tem mais volta!”. Ao chegar aqui foi aquele êxtase de ver tudo novo, diferente, aquela expectativa… Os primeiros dias foram de treinamento, duas semanas, ali eu estava com outros 25 loucos na mesma situação, então me senti mais tranquilo kkkkkk, mas quando cheguei no meu destino final, que a ficha caiu mesmo! Aí foi aquele mix de sentimento de solidão, de nervosismo, de “não vou conseguir”, com a empolgação, ansiedade pelo que iria acontecer, alegria de estar onde Deus me mandou e a certeza de que Ele estava e está comigo. Porque se não, eu certamente não estaria aqui e não teria feito o que fiz!

  • Sobre a acomodação, você foi recebido na casa de alguma família ou ficou em algum dormitório?

Casa de família. Uma família sensacional. No início aquela estranheza, mas ótima hospitalidade e confiança. E agora, seis meses depois, já me sinto parte da família!! 🙂

  • Quais os trabalhos você realizou pelo Pais Project em seu novo país?

Trabalhamos em duas frentes: escolas e igrejas. Somos uma equipe pioneira aqui em Amarillo, então o trabalho começou mais devagar do que outras cidades que já possuíam um time [do Pais Project]. Fomos a diversas escolas apresentar o Pais Project e o que poderíamos oferecer de trabalho voluntário. Já realizamos Assemblies, que nunca consigo traduzir para o português kkkkkk, uma espécie de feira do estudante para falar sobre profissões, sobre mercado de trabalho, coisas do tipo. Participamos uma vez na semana de brincadeiras na hora do almoço em uma das escolas. Temos estudo bíblico em outras escolas também uma vez por semana, e pretendemos abrir pelo menos mais  1 ou  2 em outras escolas nesse semestre.

  • Você tem uma experiência que pode ser considerada a melhor da viagem até agora?

Poxa. É difícil escolher uma… mas posso dizer que uma das melhores foi logo no início, ainda durante as duas semanas de treinamento. Fui a Starbucks com meus amigos, depois de um longo dia de treinamento, quando eu entrei para pegar um ar fresco e algo para beber, um cara de 18 anos vem de uma vez falar comigo, me perguntando alguma coisa que não entendi, até que eu percebo que estou usando um crachá do Pais Project com meu nome, e ele vem todo animado me perguntou sobre o projeto, e ele me conta que um grupo do Pais Project esteve na escola de três anos atrás. Fiquei muito animado com isso. Ele não se conteve, chamou todos nós para contar seu testemunho, e sentados do lado de fora ele conta mais ou menos isto: sou de uma família muçulmana, cresci aprendendo e seguindo o Torah, me converti há quatro meses, e tem sido difícil viver com uma família de mais de cinco pessoas, muçulmanas, que descobriram que eu sou cristão… Mas gosto muito de ir para os encontros jovens na igreja, e cultos de adoração e tal e tal…

Esse dia foi muito impactante! 🙂

Outra experiência que tive, mas a história é muito longa, então, resumidamente, foi quando encontrei um cara bêbado caído na esquina perto da rua onde moro e tive a oportunidade de ajudá-lo a chegar até a casa da mãe, pude conversar bastante com ele, conhecê-lo, compartilhar meu testemunho! Aprendi e fui relembrado de muita coisa que eu acredito ser correto e a não fazer o que também acho que é errado.

  • E quais são as dificuldades de se pregar em um país diferente do seu?

Acho que a maior dificuldade de todas é a barreira linguística. Por não ser nativo no inglês, acaba se perdendo um pouco do significado, da ênfase, que as vezes você quer dar, mas não tem as palavras corretas. A cultura também influencia bastante, principalmente aqui nos EUA, onde a maioria se diz cristão, mas não vivem como tal. Tenho percebido que o exemplo ainda é o “carro-chefe” para as pessoas verem a diferença. Falar, falar e falar pode sim fazer com que as pessoas mudem, mas o exemplo e a nossa atitude tem falado mais alto por aqui.

  • O Pais mudou ou ampliou sua visão de evangelho e de chamado?

Os dois. Acredito que mudou algumas coisas no sentido de ampliar mais a noção de “missões”. A gente só sabe realmente o que é e como é quando a gente vive e definitivamente vai para o campo! Sentir um pouco do que é abrir mão do conforto do nosso país, da nossa cultura, família, amigos, por mais que a gente imagine como será nós só caímos na real quando estamos aqui.

  • Por que você indicaria o Pais Project para quem quer fazer missões?

Para quem tem um chamado missionário para países difíceis de se pregar o evangelho, ou para algum lugar muito diferente culturalmente, o Pais é um ótimo estágio para você sentir de leve como é viver em outra cultura, vivendo o evangelho e pregando para outras pessoas.

É excelente também para quem já é envolvido com evangelismo (todos nós deveríamos estar) em suas cidades e igrejas, visto que é basicamente o que fazemos por aqui, porém com o desafio de fazer isso em horário integral. Tendo aprendizados semanais através de vídeo conferências, reuniões com os pastores, discussões, estudos bíblicos, etc.

  • Você tem algumas dicas para quem tem vontade de pegar a mochila e sair pregando a palavra de Deus?

Minha dica é: pegue a mochila e saia pregando a palavra de Deus!

Alguns versículos que me deram um empurrãozinho: Romanos 10: 1-15; Lucas 9: 57-62; Lucas 10: 1-4

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Marcos [Vinicius], muito obrigada pela sua disponibilidade, não só de responder a entrevista, mas de enviá-la duas vezes! Espero que quem me lê por aqui também corra para sua página e confira o seu ministério por aí, no Texas, pois é sempre incrível lembrar como nós podemos apoiar uns aos outros com nossos testemunhos. Que o Senhor te abençoe neste período de intercâmbio (e quando voltar!). PS: aproveita o frio, porque aqui não tá fácil hahaha…


Vamos orar?

DEUS COMO O SENHOR É INCRÍVEL! Como nós te amamos! A série de janeiro, que a gente acaba hoje, me fortaleceu e me ajudou a entender mais do teu reino, eu peço que cada um que passou os dias comigo nesta caminhada também tenha saído mais forte para o “eis-me aqui”. Nosso desejo é estar disponível, Deus. Disponíveis quando tudo o que queríamos era estar fazendo outra coisa, que o nosso amor por Ti seja maior do que todas as nossas vontades, que esse amor traga o senso de que a tua vontade é tão doce que te priorizar é um prazer. Deus, o Senhor é bondoso, amoroso, cheio de graça, de perfume, de tantos adjetivos que queremos apresentar nossos corações para servir, queremos levar o evangelho da maneira que o Senhor escolheu para que levemos. Deus, o evangelho é um só – coeso, capaz de nos tirar de nós mesmos -, mas pode ser apresentado de tantas formas… Amadurece nosso entendimento em Ti, para que nosso evangelismo seja mais eficaz. Em teu nome nós oramos, Jesus. Amém.

Um versículo para chamar de seu

A palavra de Deus me completa como nenhum livro que eu já li na vida. Ela me alegra, como um volume de uma distopia sangrenta, me me emociona, quando logo no início do capítulo 21 de Atos, Paulo abraça seus discípulos, sabendo que nunca mais os veria, exatamente como o final do Diário de Anne Frank me faz chorar toda vez que leio. A Bíblia me faz pensar sobre a vida e sobre a nossa cretinice humana, como um livro russo cheio de poeira e de tristeza. Mas só ela é capaz de me fazer nova. Só ela me enche de vida. Só ela abre um rio dentro do meu peito e faz fluir em mim o que sempre precisei, mas nunca fui capaz de ter. Este é só um post para te perguntar: você já achou o versículo que vai te sustentar durante o ano? Pergunte ao Senhor nesta quarta-feira-cadê-final-de-semana.

Enquanto você não encontra o seu, eu te empresto o meu:

Eles se ajoelharam, adorando-o. Voltaram para Jerusalém explodindo de alegria; e passavam todo o tempo no templo, louvando a Deus. Amém.

Lucas 24: 52 e 53


Esse texto NÃO faz parte dos posts temáticos de janeiro.

Um post dentro do outro (ou: Sem medo do nariz escorrendo)

Este texto NÃO faz parte do tema do mês de Janeiro, que atenção: vai durar mais alguns dias de fevereiro, pois temos mais posts agendados. Mas não é novidade neste blog que o novo mês “comece” no dia 05 (risos). Se você quer ler os textos de janeiro, clique aqui, aqui, aqui e aqui.


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{Para ouvir enquanto lê}

Uma semana virada do cão, como diria uma amiga.

Aquela que você olha para si e não acredita em nenhuma decisão que já tomou na vida. Desde escolher a cor da sua lancheira no pré, até o que você agendou para o dia. Nada parece certo.

– O que eu estou fazendo, Deus?… – O pensamento corrói meu interior como um vírus novo que vai transformar todo o mundo em zumbis com cabeças que se abrem em uma espécie de flor carnívora nojenta e pegajosa (beijos, Umbrella Corporation).

Eu cancelo os planos de atualizar o blog na semana.

– Não posso fazer isso quando estou virada do cão, Deus. – Eu digo mais para mim do que para Ele.

E aí, eu penso no tipo ralo de confiança que tenho tido em Deus durante a semana. Pensando em quantas vezes imagino que não conseguirei terminar minhas atividades planejadas e escritas na agenda para a parte da manhã, pensando em tudo o que eu planejei para mim há 15 anos.

– A vida é assim com todo mundo, não se ter o esperado não é privilégio meu. – Eu penso, esperando o porteiro do meu trabalho, um senhor simpático e de sorriso aberto, abrir o portão.

Eu marco para almoçar com uma amiga e acabo segurando o peito entre uma mordida e outra, pensando em fantasmas dos passados e futuros já planejados. Sacudo a cabeça e como outro pedaço. O frango já estava frio.

– Você não confia em mim? – Eu O ouço.

– Agora não, Deus…

Eu, audaciosamente, falo, como se fosse possível dar um passo sem que Ele permitisse. Eu peço para que Ele espere, porque imagino, erroneamente, como toda essa conversa é chata demais para alguém tão grande. Corto outro pedaço do frango. Eu penso na quantidade de pessoas que se sentem miseráveis no exato momento em que levo a carne até a boca. Na quantidade de pessoas que imaginam se um dia tudo fica melhor. Na quantidade de pessoas que sentem que desapontaram metade do mundo. Na quantidade de tristeza. Eu engulo tudo, assim como engulo a comida. Pego a conta, abro a carteira, tiro o cartão, passo, e o homem do caixa sorri:

– Obrigado. – Ele diz e eu sorrio de volta, imaginando o que ele está pensando agora.

Ele não sabe, mas eu, enquanto dizia “obrigado você” e procurava seu nome no crachá para completar a frase, pensava em como queria dormir doze anos seguidos.

Saindo do restaurante, eu olho para as pessoas e olho para mim e para as pessoas. Eu abro o meus ouvidos para Deus, eu sei que Ele está ali, agora em silêncio, eu sei que a maioria de nós está na terra em silêncio. Girando. Orbitando. Fazendo planos. Morrendo.

E eu sei que deveria escrever um post nesta semana. Mas digo não.

Esta semana não. Eu vou voltar para casa depois do trabalho, cantar no banho, adorar, chamar pelo Senhor, ler a Bíblia, me manter aberta para as coisas e aí sim, escrever um post.

Todavia, eu sabia que Ele já estava ali. Como chamar alguém que já está na sala?

– Oi. – Ele diz com sua voz doce e forte. Meus olhos se enchem de água e meus pulmões de ar, como se um tornado houvesse me invadido com uma cachoeira de chocolate quente.

Não tão imediatamente, eu escrevo o texto abaixo (um post dentro do outro, é isso):

Eu não tenho que temer o nariz escorrendo

Eu sinto medo de falar sobre você em semanas em que estou virada do cão. Porque eu acho incrivelmente difícil pregar quietude quando eu nem sei se meu barco vai parar de girar. Mas isso é bobeira, Deus, porque o fato de eu não estar usando a âncora, não significa que ela não exista. Você é real. Você existe. Você é minha âncora, e eu decido finca-la na areia. Agora.

Eu decido não ter medo de pregar o verdadeiro evangelho, aquele que nunca esconderá que este mundo não é, e nunca será, sobre minhas realizações. Eu estou satisfeita em ti. Eu não estou satisfeita em ti quando estou satisfeita com o resto da minha vida. Eu estou satisfeita em ti e ponto.

– Davi não tinha medo de chorar e levantar com o nariz escorrendo desde que fosse comigo. – Ele explica.

As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, enquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus?

Quando me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma; pois eu havia ido com a multidão. Fui com eles à casa de Deus, com voz de alegria e louvor, com a multidão que festejava.

 Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei pela salvação da sua face.

Ó meu Deus, dentro de mim a minha alma está abatida; por isso lembro-me de ti desde a terra do Jordão, e desde os hermonitas, desde o pequeno monte.

Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado sobre mim.

 Contudo o Senhor mandará a sua misericórdia de dia, e de noite a sua canção estará comigo, uma oração ao Deus da minha vida.

 Direi a Deus, minha rocha: Por que te esqueceste de mim? Por que ando lamentando por causa da opressão do inimigo?

Com ferida mortal em meus ossos me afrontam os meus adversários, quando todo dia me dizem: Onde está o teu Deus?

 Salmos 42: 3-10

Davi e seu coração de cinco milhões de GB…

Eu não quero temer. Eu não quero que os outros temam.

Eu quero pregar que se você não está no seu melhor dia e não tem uma selfie com um versículo maravilhoso para postar nas suas redes sociais: ESTÁ TUDO BEM. Pra mim, o evangelho é, também, sobre deixar que nossas dores revelem a glória de Deus, porque, no final, penso que o evangelho é saber que tudo o que nós temos é você, Deus. Nos dias bons e nos dias em que tudo é aquele velho meme “queria estar morta“. Deus, tudo o que nós temos é você. E isso assusta minha geração acostumada a descansar seus planos em uma ideia de felicidade constante, em uma fórmula de prazer absoluto, em uma igreja de atividades.

No entanto, Deus, me ensine a ser como Jesus. Que o que eu penso ou sinto não seja maior do que minha vontade de saber como os outros se sentem. Que não importe como eu quero dormir doze anos, mas que importe mais como o moço do caixa daquele restaurante se sente. A minha vida não é sobre mim, mas é sobre o Senhor e sobre o que Jesus pregava: é melhor servir do que ser servido. Quando meu coração estiver me traindo, que eu me preocupe com o coração do meu próximo. Quando minhas realizações e a falta delas estiverem me incomodando, que eu ajude alguém a realizar seu sonho. Quando eu não encontrar alegria em minha rotina, que eu grite a Bíblia, com o peito aberto, declarando que a alegria do Senhor é a minha força. Quando eu não quiser escrever um post, algo tão simples e que eu amo fazer, que eu escreva dois, um post dentro do outro.

Eu estou satisfeita em ti.

“Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face, e o meu Deus.”

Salmos 42:11