Arquivo mensal: fevereiro 2014

Só um texto sobre o segundo mês do ano

{para ouvir enquanto lê}

{para ter certeza de que você clicou no link acima, hehehe}

Passo o dedo nas ranhuras untadas com lustra móvel da escrivaninha onde estou sentada. Penso sobre a própria palavra escrivaninha. Me lembro de alguém que fala escrivainha. Acho lindo. Olho para a página em branca. Olho para tudo que Deus tem feito. E então coloco Chico para tocar.

É tarde e não consigo escrever sobre o assunto que combinara com Deus. Penso nas besteiras que ainda não consegui deixar, como achar fevereiro o mês mais sonhador do ano.

– Por quê? – Meu amigo pergunta, como se não soubesse todas as respostas que vão sair de minha boca. Ele parece curioso, fingindo não seguir todo o meu raciocínio antes de ele pular de uma sinapse despercebida para minha boca.

– É um mês que começa de repente e acaba de repente. Tem um tempo certo de vida… Não sei, Deus…

– E?… – Rá, Deus! Eu sabia que você estava por aqui, dançando entre meus pensamentos do que irei fazer amanhã e de como gosto tanto de fevereiro como gosto de junho…

– Fevereiro é o mês que a gente conheceu Peninha e se despediu de Pixinguinha…

– Os dois no mesmo dia. 17.

– Hoje.

Em algum tempo paralelo imagino suas músicas indo e vindo e Chico, querendo entrar na história, canta nesse exato instante: um tempo que refaz o que desfez.

As nuances do Espírito sempre me espantam.

Coloco a mesma música para tocar de novo, e repasso a última semana… Eu editava um vídeo de madrugada – 04h20 – quando senti o poder de se pregar amor se chocando contra meus dedos e o mouse… Repasso a noite de ontem, enquanto passava em frente à igreja encharcada de tanta chuva – metade de mim queria dançar como Gene Kelly, metade de mim tinha medo de leptospirose, rs … E a soma das experiências é sempre a mesma: fevereiro é uma música do Chico que Jesus canta pra mim antes de dormir.

Que texto mais besta, Deus… É só que a vida que o Senhor nos deu é tão cheia de pequenos detalhes, que ser pragmático, às vezes, é desperdício.

Imagino se Jesus, quando estava na terra, gostava de fevereiro. Imagino se Ele já ficou encharcado com chuva. E então, meus olhos escapam para a madeira da escrivaninha de novo e me lembro de que Ele era carpinteiro.  E meus olhos se enchem de água.

– Eu poderia estar tocando em algo que o Senhor fez agora, caso voltasse uns dois mil anos atrás, Jesus…

– Hoje é seu dia de sorte: eu fiz tudo o que você está tocando.

Minha garganta faz um glup conhecido, como um nó de marinheiro bem dado (existem nós de marinheiros frouxos?).

Preciso não dormir

até se consumar

o tempo

da gente

Chico, chico, chico, não ajude esse meu Deus a me desmanchar…

Sorrio.

– Semana da Arte Moderna. Também em Fevereiro, Espírito. Nesta exata semana, só que há 92 fevereiros atrás…

– E fevereiro tem cheiro? – Jesus brinca, porque sabe que acho que Junho tem cheiro – não é loucura, juro.

– Quando eu descobrir que cheiro vontade tem, eu deixo o Senhor a par da situação – brinco.

Apenas seguirei como encantado ao lado teu – Ele sussurra a música que Chico cantava segundos atrás.

E, então, eu conto: faltam onze dias para o fim de fevereiro.

Não, eu não vou te responder quantos filhos eu pretendo ter (ou: Manifesto contra os questionários sociais)

{para ouvir enquanto lê}

Nunca vou entender gente que gosta de fazer mal para as outras pessoas. Gente cruel mesmo. Daquelas que desmerecem roupa, sotaque, nível de escolaridade… Quanto mais tempo passo nessa terra, mais me questiono: porque é tão errado assim ser como você é?

Simplesmente não deveria ser. Simplesmente não é.

Me peguei pensando sobre escolhas universitárias, sobre empregos e futuro… Sobre a quantidade de vezes que fui tratada de forma diferente no campus quando descobriam que eu {} cursava comunicação. Sobre a quantidade de vezes que eu me tratei diferente por isso.

Alguém que vi poucas vezes na vida, que não é da minha família, não é do meu ciclo de amizades, praticamente uma desconhecida me disse esses dias:

– Mas você é você, porque você seria o que você faz?

Não sei, moça…

Eles nos ensinam sobre status, sobre os melhores lugares, sobre excelência. E aí, muitas vezes, nos viramos para Deus e pedimos “o melhor dessa terra”. Mas o que diabos – com o perdão aí – é o melhor? Quando foi que a gente decretou que o melhor é fazer faculdade, pós, mestrado, MBA fora…

Sim, eu sei que tudo é socioeconômico, que não dá para ser radiante sem uma condição mínima de vida (em um país que livro custa R$49,90 e uma kitchenette raramente sai por menos de R$500,00 por mês, minha gente!). Sei que trabalhos que ganham mais têm mais concorrência na faculdade e aí o ciclo do orgulho e preconceito – sem Jane Austen – se perpetua… Mas mesmo sabendo disso, porque ainda nos incomodamos tanto com o outro? Com o que o parente de quinto grau vai pensar quando nos vir no natal?

Você não é advogado. Você é você. Você não é mãe, você é você. Não devia ser estranho não ser o título que ostentamos, mas é.

Tenho descoberto que o evangelho pode me livrar dessas bobeiras todas. Ao contrário do que muitos pregam (acusação, acusação, acusação), encontro cada dia mais um Deus que é libertador e que liberta só para a liberdade, para nada mais. Tenho achado um Senhor que sabe ouvir e que tem me perguntado:

– Porque as coisas tem que ser tão complicadas?

– Porque, às vezes, a gente pensa muito, Jesus… Pensa e pensa de novo e já não tem certeza de mais nada… Da vida, da profissão, das escolhas…

– Rodin – Ele brinca -, tira a mão do queixo, vai marcar.

O Espírito pergunta em meu interior se eu tenho sofrido pelas pessoas ou por Ele? Eu tenho me perguntado se escolhi isso ou aquilo por causa Dele ou de meio milhão de pessoas más, exatamente como as do início do texto?

Geralmente pela segunda opção. Tenho pedido para que o Senhor sacuda meus ombros de todas as opiniões que importam tanto quanto guardanapo sujo. É um exercício diário se lembrar quem você é e que não tem problema em ser assim. Não tem problema preferir carro pequeno, querer uma estante maior do que a cama, fazer um projeto de casa que não incluí ter tapetes felpudos, ter um cofrinho para comprar uma bicicleta nova e precisar de música até para escrever spot de rádio.

Não tem problema em não ser neurocirurgiã e não tem o MENOR problema em ser (porque se você não fizer nada errado, deve ser legal, rs).

A gente ouve demais os outros, está mais do que na hora de prestar atenção no que o Senhor está dizendo. Pode-se dizer que sou uma expert nesse assunto, hahaha…

Era uma vez uma pessoa que escutou demais as vozes dos camponeses do reino. E se deu mal. Várias vezes.

Tudo começou com:

– Deve ser ótimo ser a filha do pastor…

Mas, dentro de mim, milhares de vezes, não era ótimo. E aí eu me sentia culpada por que deveria ser ótimo. Que bobeira. Quem foi que disse que tinha que ser ótimo, Jesus… Aquela pessoa que me conheceu há três minutos e 17 segundos?

– Mas você pensa assim? Seu pai não é…

Meu pai é o mesmo que o seu: o sinhô seu grande Eu Sou, que atende por mais meio milhão de nomes…

Fui escutando tanta coisa na vida que tentei ser perfeita.  Com check list e tudo. Tentei participar de tudo, tirar as melhores notas, me inscrever em concursos de alguma redação com o tema menos interessante deste mundo. E no meio de tudo isso, lidava com problemas realmente sérios sozinha, porque pessoas perfeitas só tem amigos para ocasiões perfeitas.

E foi assim que eu adoeci. A culpa de ser exatamente como eu sou – e de enfrentar problemas e pecados sozinha – foi grande demais, eu tinha que matar um pouquinho de mim por dia.

E tudo isso por gente que se quer se importava de verdade comigo. Com quem eu realmente sou. Tudo por pessoas que só querem que a gente responda um tipo doentio de questionário: profissão, ambição, filhos, namorado, casa própria.

Mas eu descobri alguém que morreu de uma vez só por mim e parei de tentar parcelar a morte.

E Ele disse que estava tudo bem ser quem eu era, porque Ele tinha me criado daquele jeito. Nunca vou me esquecer do dia que Ele me disse que eu era divertida.

Vocês sabem quantas piadas esse cara chamado Deus já deve ter ouvido? Se Ele falou que eu sou divertida: FUCK THIS SHIT, hahaha…

Pronto. Comecei a falar com Ele sobre livros, sobre séries, sobre minha vontade de viajar por aí só com Ele e um bocado de cadernos. Falar com Ele sobre falar Dele para os outros, sobre construir igrejas, sobre sorvete e o Mercosul. Nós começamos a rir, a brigar, e quando tudo parecia cair de novo e minha mente voltava para os antigos padrões de se importar com os outros, engolir o choro e pegar algo que me machucasse fisicamente e emocionalmente, Ele é quem gritava:

– Você tá doida?

E é a bronca mais bonita do universo. Porque eu sinto que eu posso correr para Ele. Para a única pessoa que não nos rejeita por sermos exatamente quem somos. Eu senti que podia renovar minha mente, como Paulo fez.

E é por isso, moça-quase-desconhecida, que você estava certa: a gente é quem a gente é. A gente é filho do cara que É. Se o que somos não parece radiante, bom ou maravilhoso para os outros, que pena. Eles deveriam nos ver aqui de dentro, parece uma terra nova e cheia de expectativas…  Parece o terreno que Deus vai usar para algo especial, às vezes um pouco árido, às vezes Nárnia.

“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão.”

Gálatas 5:1

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Não era para ser autoajuda, mas se tiver ficado parecido, abraça o post e vai hahahaha…