Arquivo mensal: agosto 2013

Neemias tacou uma chinela em mim (ou: Dedicando tempo para quem realmente importa)

Tozer, em um de seus livros ou pregações (sou péssima com especificações de vários livros do mesmo autor ou da mesma saga: onde mesmo que o Percy falou aquilo?), disse que Deus não se curvou diante de nossa necessidade de estar sempre com pressa.

“O homem que deseja conhecer a Deus precisa dedicar-lhe tempo”, afirmou seu Tozer. E isso parece incrivelmente lógico, até você precisar que Ele te responda em exatos… bem… “Nos próximos cinco minutos está bom pra você, Jesus? Pra mim seria ideal”.

Na maioria do tempo, isso não funciona dessa forma.

Construir um relacionamento duradouro com alguém demanda tempo. Não qualquer tempo, um daqueles separados para algo especial, muitas vezes o momento de se sentar em frente ao computador, abrir o Netflix e assistir tantos episódios do seu seriado favorito que sua córnea decida derreter, ou o tempo que você deveria estar dormindo. Devo dizer que Deus tem preferências por falar uma coisa importante quando estou no meio de outra coisa importante e aí me pego negociando:

– Deus, é sério, eu tenho que prestar atenção no que ele está falando, tenho que escrever uma reportagem com isso.

Ou, então, quando já de pijamas, jogo o corpo na cama e…

– Deus que lindo a gente conversa amanhã, não Deus é sério, a gente… Ai, Deus… O Senhor quer a Bíblia também? E os livros da Ruth (Ward)? E uma música? De joelhos? O Senhor sabe quantas horas são? Já vai, Jesus.

Deus não se importa que tenhamos tempo livre, mas creio que para mim, essa é uma das únicas coisas que me fazem refletir sobre a importância de dedicar um tempo para conhecer, conversar e se apaixonar por Deus.

Diversas vezes paro em uma loja e, em dúvida do que levar, pergunto a Deus:

– E aí, Jesus, o brinco azul ou o vermelhinho? Rápido que eu tenho que ir trabalhar.

E parece que as palavras “rápido que eu tenho que…” ressoam dentro de mim, mesmo que por algo besta: um par de brincos baratos no caminho do trabalho. O motivo disso? Eu reconheço que repito esse comportamento outras vezes e pior: fico indignada quando não recebo resposta.

Sabe quando você ora depressinha e fala coisas como: “Deus me ajude a resolver isso agora” e nada vem a sua mente? Nessa hora, minha metade colérica e mandona automaticamente começa a planejar a solução do tal problema e quando vi já fiz tudo como eu achei que seria o melhor.

E adivinhe?

Geralmente dá errado. E acredite, pode dar errado mesmo. Do tipo: muito. Bem errado. Aquele erro que parece não ter solução. Que você comete e automaticamente escuta palmas ressoarem no ar e sinos invisíveis badalarem anunciando: parabéns, querida, vai ser difícil superar esse daí.

E aí eu corro para o quarto e faço o que ele havia me mandado fazer antes: Bíblia, livros da Ruth, música e joelhos. E como boa usuária conveniente da Bíblia, eu ainda digo:

– O Senhor transforma a maldição em benção! – E Neemias desamarra aquela chinela de cordas dele e taca na minha cabeça, enquanto Jesus ri.

Ai, que engraçado é isso, hein, Deus?!

Não adianta ficar irritada, como era de se esperar: o erro foi meu. Mas eu insisto:

– Mas o Senhor não falou comigo! O que eu devia fazer? Eu precisava resolver aquela situação NAQUELE-MINUTO.

Nesses momentos, Deus sempre me lembra do que minha líder costuma dizer: Deus sempre fala, nós é que não ouvimos.

Se Deus sempre fala, porque eu não estou entendendo? Bem, é aí que nós voltamos para o início do texto: há algumas conversas que nós só compreendemos com intimidade e intimidade só se constrói com tempo. Se você não gasta tempo diário, semanal ou sequer quinzenal com Deus, como é que você vai aprender quando ele disser: “não faça esse curso, não termine o namoro, escolha o brinco azul porque o vermelho é feio demais, menina!”?

Provavelmente não iremos entender. Cometeremos erros e, caso você se pareça comigo, nos debruçaremos sobre eles até os joelhos ou os olhos ficarem inchados.

Deus, em sua infinita misericórdia, muitas vezes resolve o que eu fiz ou me ensina a resolver, exatamente como o meu pai fazia quando eu e meus irmãos éramos crianças e fazíamos uma bela bagunça com a linha no molinete durante a pescaria: ele largava a vara de pescar dele e, pacientemente, desenroscava tudo. Ou, quando já estava cansado de não conseguir ficar com a isca na água por cinco minutos, nos ensinava como fazer.

Mas (sempre o maaaas), algumas vezes o erro se transforma em uma porta fechada e você vai precisar aprender a cavar poços novos.

Se Deus está te chamando para estar mais próximo dele com orações em horários esquisitos, aceite! Se ele está te incomodando para abrir a Bíblia, tire a coitada da gaveta. Acredite, ele está te ensinando a doar o seu melhor tempo a Ele. E como nosso Deus é galardoador será ali de pijamas, sentado do lado de fora do seu trabalho, orando com os olhos abertos no ônibus ou no trânsito, que Jesus vai te falar coisas maravilhosas! Tão maravilhosas que você vai gravar o tom da voz de Cristo em seu coração para sempre lembrar quando, em um momento de pressa, você, folgado como eu sei que você é, gritar:

– Deus, preciso de ajuda pra resolver um negócio aqui rapidinho.

Fica mais, Espírito, tem sorvete

De novo estou imaginando se Deus tem um tipo favorito de sorvete. Espero que não seja baunilha.

E então, a Sua glória surge tão límpida, tão calma e fresquinha que eu não tenho vontade de desdizer-qualquer-mal-dito ou simplesmente de me mover. Ela me consome. Me guarda. Me cerca. Ela me liberta como um bilhete escrito sem mesóclise. Escrito pra mãe avisando que vou demorar. Escrito pra você, Espírito, só para te lembrar de sempre ficar mais um pouquinho. Pra te dizer que peguei Israel como sobrenome e não estou certa se algum dia eu vou devolver.

Deus e minhas linhas de ônibus

O que eu tenho percebido a cada dia é que não há como enganar a vida. Deus fez o universo delimitado. Ou você se encontra Nele, ou não. O meio termo é terrível. É assustador.

No início, quando você põe o seu pé na linha entre o céu e o inferno é como se afogar e ser incapaz de morrer. Você sente água entrando pelos pulmões e saindo e entrando. Você não pode morrer. Mas não pode ser feliz.

Contudo, o tempo passa e a gente se acostuma. É bobeira pensar que não. E a vida no meio do caminho não é tão dolorida. Algumas vezes você se lembra de Deus e seus pulmões queimam e você deseja morrer de novo. Mas na maioria do tempo, o mundo segue tranquilo. Quando você acha que direcionou muito o pé para o lado do inferno, apenas repreende um amigo que fez uma brincadeirinha “estranha”, mas no outro dia, isso já foi assimilado ao meio termo da sua vida e, talvez, não volte a te chocar.

Deus.

Tenho pensado muito no cristianismo que temos ensinado. Que temos aprendido. Nos cristãos que temos sido. Hoje, consigo pensar nisso de forma clara. Claríssima. E é estranho, e é como um sonho. Hoje sou capaz de fazê-lo, porque decidi sair da linha que me conduzia a um nada tão filosófico e cultural e cheio de mim e dos outros e vazio de Cristo e de sua palavra; um algo tão bonito e ornamentado que costumo chamar apenas de inferno. E foi uma das coisas mais difíceis do mundo. Foi como sair de mim e me sentir completamente vazia.

Explico. Pessoalmente creio que quando se está muito estragado pelas infinitas experiências de se estar por aí é complicado Deus entrar de uma só vez em nós, pelo simples fato de que você não jogou tudo fora de uma só vez. E se eu conheço esse Deus, ele não entra onde metade de você ainda não decidiu se realmente quer sua lei. Você fica limpo em algumas áreas, mas vazio, porque Deus espera pelas outras, entende?

É melhor voltar e explicar de novo.

Lembra-se daquela linha do início? Pois é, quando você resolve sair dela, às vezes você vai se sentir vazio até entrar completamente em Deus e ser Dele, enchido por Ele, suprido por Ele. Às vezes, faltam apenas alguns passos para ultrapassar a linha, mas esses passos são de extrema solidão e vácuo. Você e só você precisa aprender como voltar para o palácio do rei.

Eu sou palavra e visual. E foi assim que cheguei a Deus de novo. Escrevendo e visualizando o que escrevia. Orando e visualizando o que orava. Chorando e escrevendo o que chorava.

E foi em um desses momentos que pensei sobre algo que comecei a contar, mas interrompi porque não sei seguir a mesma linha de raciocínio por muito tempo sem inúmeras pausas para… bem, para nada. O fato é que foi em um desses momentos que comecei a pensar sobre o cristianismo e sobre a igreja. Acho que a metade de nós tem vivido na linha entre o céu e o inferno. Acho que nós temos ido à igreja aos domingos e prometido melhorar, se envolver, mas isso simplesmente não acontece. E sabe, eu já vivi um longo período assim.

O fato é que eu consigo ver esses rostos de dúvida na igreja e tudo que tenho pedido a Deus e que faça o que tem feito comigo: decisão.

Isso tem me preocupado muito esses dias. Lembro como o diabo joga nesses casos. Você acha que simplesmente pode fazer coisas que você não pode.

Princípios.

A queda por se encontrar no meio termo acontece devagar, mas uma vez decretada é realmente difícil sair dela. Sabe por quê? Por que todos os princípios e verdades cristãs que havia dentro de nós foram, aos poucos, despedaçados. Um exemplo? Quando você precisa de ajuda, você imediatamente ora ou liga para alguém cujo amor por você é inquestionável, mas que não possui sabedoria cristã? Eu ligaria para alguém e, de verdade, cuspiria na cara de quem deu esse exemplo. Diria que uma coisa não tem nada a ver com outra. Mas tem. E, graças a Deus, tenho aprendido isso. Quem é o seu socorro é também guardião do seu coração. É claro que você pode ligar para alguém, eu não sou tão louca assim. O que eu quis dizer é que os princípios simples como “o socorro vem do Senhor” vão sendo dissipados quando estamos sendo mornos na casa de Deus.

E muitos outros vão indo embora… E quando você percebe, não consegue orar em casa com a mesma intensidade, para sentir a presença de Deus precisa de música com arranjos maravilhosos de violino e gritos e… o que seja. Deus não esta mais em você e não minta: você não está mais nele. Você não quer estar mais nele.

Deus trabalha com princípios e leis e sem eles, esqueça.

Tenho aprendido isso.

Esses dias eu estava esperando um ônibus no terminal. Posso pegar duas linhas, mas escolhi uma que vou chamar de 1. Depois de esperar algum tempo, percebi que a 2, que eu também poderia pegar, estava chegando primeiro, por isso corri para sua plataforma. Todas as pessoas do ônibus desceram, o ônibus fechou suas portas e saiu. Ninguém entrou. Perdi meu lugar na fila do ônibus 1 e não peguei o 2.

“Belo negócio”, eu pensei.

Quando eu pisquei, lá vinha o ônibus 1 e eu tinha que voltar para a sua plataforma para um lugar pior do que eu estava no inicio. Pensei em esperar na plataforma do 2 mesmo, mas estava atrasada – como sempre! – e tive que correr e voltar para onde eu estava, no 1.

Isso pode parecer uma história sem sentido e pareceu mesmo quando eu estava trançado de um lado para o outro no terminal, mas quando entrei no ônibus percebi Deus falando: é assim que você faz quando fica no meio termo, quando é morna. Eu disse para você ficar na plataforma 1, mas você viu algo na 2 e resolveu ir e foi sozinha, por que eu, filha, eu não posso ir onde meu espirito não está. Mas a vida na plataforma 2 é enganosa e você quis voltar, mas ficou com vergonha, não ficou? Quis esperar até que o 2 chegasse mesmo vendo o ônibus 1 despontando. É assim que é voltar para os meus caminhos. Às vezes, você vai se sentir com vergonha e não vai chegar nos meus melhores lugares, mas eu sempre terei espaço para você.

Eu queria que todas as pessoas que estão tendo seus princípios cancelados escutassem ao homem do ônibus 1 hoje…

O cristianismo é simples, eu tenho aprendido. É somente permanecer e ama-Lo até o fim.

Mateus, aquele apóstolo que não brincava de Pique no Ar

Você já fez alguma coisa para testar se Deus te odiaria um pouco que fosse naquele dia?

Eu já.

Quando era pequena, creio que por volta dos seis ou sete anos, li, pela primeira vez, a passagem de Mateus que nos adverte a nunca chamar nossos irmãos de tolos.

Lembro direitinho do dia.

Eu estava dormindo na casa de uma – grande! – amiga e fomos fazer a leitura da palavra depois de brincarmos com a casinha da Barbie (ela também tinha o carro rosa da Barbie e nós ficávamos horas dirigindo aquilo). Abri minha primeira Bíblia escrita, como eu chamava Bíblias que não tinham desenhos, ou seja, minhas anteriores, e li os primeiros capítulos de Mateus. E… tcharam! Li a tal passagem do tolo. Primeiro fiquei preocupada, preocupadíssima, será que eu, do alto dos meus sete anos, já tinha feito tamanho ato de imbecilidade?

Minha amiga perguntou algo sobre conseguirmos brincar mais um pouco sem que ninguém nos ouvisse, duvidei disso e fomos dormir. Alguns dias depois, estávamos em frente a nossa igreja depois do culto, nessa época no interior, e em uma discussão muito acalorada, mais uma vez do alto dos meus sete anos, eu disse indignada:

– É claro que aqui é pique, por que é uma mureta e todo mundo sabe que mureta é estar no ar e a gente está brincando de PIQUE. NO. AR.  você é… você é…

Eu podia ter dito qualquer coisa, mas escolhi uma palavra que nunca usaria em meu cotidiano:

– Você é tolo?!

O menino bufou, aceitou que ele ainda era o pego, contudo eu não conseguia mais prestar atenção na brincadeira. Queria saber se Deus estava zangado comigo. Se ele ainda continuava me amando da mesma forma como fizera quando eu acordei.

Uma tentativa, daquelas bestas, de entender: afinal, onde acaba um amor infinito? Sim, ficou bem parecido com aquela ideia de imortal que não morre no final (beijos, Sandy), mas me desculpe, incondicionalidade não é um conceito fácil para mim.

Incomodava-me a ideia de alguém me amando sem que eu mereça.  Ou me amando sem um limite. Pensar em alguém que nunca te olha com cara de vá te catar de vez é meio maluco…

– Jesus, você odiou isso, não? – Eu pensava vez ou outra na minha cabeça, geralmente sem resposta. Mesmo anos depois do episódio que, nada imparcialmente, apelidei: Mateus, seu fanfarrão, pegue leve com as crianças de seis ou sete anos.

Um dia, de forma desavisada, recebi uma resposta. Daquelas diretas e que você sabe que não foi seu subconsciente culposo:

– Eu não vou te odiar por isso. Isto sequer diminui o quanto eu te amo. Mas também não diminui o quanto me machuca sua falta de habilidade em receber o meu amor.

Não sou insensível, vim de uma família normal e amorosa, daquelas que têm avós maravilhosas e tias que brigam no natal, mas isso não diminuía o incomodo que às vezes tinha em receber o amor de Jesus. Puro, simples, direto e mais intenso do que qualquer outra coisa que vai existir. No entanto, quando Ele disse que minha falta de receptividade o machucava, levei um susto.

Daqueles sustos que dão raiva. Exatamente como quando minha irmã fica agachada durante, aproximadamente, 87 horas esperando que eu vá até o quarto, para ela, já com cãibra, pular em cima de mim enquanto grita. O tipo de susto que podia ser evitado, razão pela qual o odiamos.

A minha incapacidade em ganhar o amor de Deus por completo O machuca, porque ela esconde a vontade de merecer algo que nunca conseguirei: Jesus.

É engraçado como Deus nos desconstrói com jeitinho. É claro que o problema era eu o tempo todo, mas ele sabe como descosturar as mentiras dos nossos corações sem causar outros danos a eles. Para mim, uma das melhores formas de fazer isso é lendo pessoas que estudam a Bíblia e escrevem livros de estudo. Uma dessas pessoas é A. W. Pink, quando você for íntimo dele poderá chama-lo de “um cara durão da fé”.

pink
O britânico Arthur Pink

Sério, o seu Arthur era certeiro em suas pregações e por isso começou a não dar certo nos sermões (as pessoas convidavam ele a se retirar da igreja), achavam que ele falava demais. Apesar dos pesares sou uma defensora de Pink, acho que ele tinha tanto a falar que até seus dedos foram contaminados e ele começou a escrever livros, revistas, artigos e estudos da palavra de Deus.

Essa foi uma biografia bem resumida e bagunçada de A. W. Pink para introduzir uma de suas frases que mais gosto e que me ajudou a mudar minha mente em relação a minha polêmica pessoal do tolo VS. amor:

“Não há maneira pela qual, por nós mesmos, possamos gerar santificação. Nossa santificação é Cristo. Não há maneira pela qual possamos ser bons. Nossa bondade é Cristo. Não há maneira pela qual possamos ser santos. Nossa santidade é Cristo.”

Não há maneira pela qual eu possa merecer o amor de Deus. Esse amor é Cristo.

Que maravilhoso!

Talvez você sempre tenha aceitado a Deus de maneira fácil e não consegue entender como tem um cisco no meu olho neste exato momento. E dos grandes. No entanto, se você tem o sentimento, pequeno que seja, de que precisa merecer tudo o que tem, entende a poeira repentina nos meus olhos e como é libertador aceitar que o amor do Senhor nos constrange e está tudo bem, não tem nada de errado com isso. Eu não preciso cantar, escrever, obrigar as pessoas a me ouvirem tocar teclado – coitadas –, ele me ama quando estou de pijamas, ele me ama quando eu pulo o Si menor das minhas músicas, porque não faço ideia de como tocar isso no violão. Ele me ama quando tenho o melhor dia no trabalho ou quando faço uma pergunta idiota para uma fonte, quando oro por horas, ou quando durmo cinco minutos depois de dizer “oi, Deus, foi tudo bem aí ou você teve que parar uma corrida sensacional que dois anjos estavam fazendo para ver quem chegava à sala do trono primeiro?”.

Ele. Me. Ama. Há! Eu. Sim, a mim (me da licença, mas vou fazer a dança do Chandler para comemorar). Aceitar isso não torna o amor de Deus rotineiro, mas algo para ser lembrado todos os dias.