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Baiacu (conto #1)

Você pisca e está acordado. Mais uma vez e está sentado, olhando diretamente para  uma pessoa sem saber o que ela está falando. Talvez esteja reclamando do marido, que nunca lembra de pagar a fatura em dia e aquele um real e sete centavos da multa a tire do sério. Talvez esteja falando do tempo. Você pisca e a boca dela parece duas ondas se encontrando distantes no oceano.

Oceano.

Você faria tudo para mergulhar. Nunca tentou. Já viu milhões de pacotes no aplicativo de descontos que baixou, mas se planejar para mergulhar significa realmente colocar no papel o quanto ganha, e você ganha pouco não quer colocar no papel o quanto realmente ganha. Então faz o que todo mundo faz quando não pode comprar as coisas: procura por elas na internet.

A mulher continua falando com você por trás da tela do seu computador, mas você não está resolvendo o que é que ela tenha vindo pedir, você está digitando no google: mergulho para iniciantes. Aparece um vídeo do youtube, você não pode colocar fones, então muda para a página de imagens e uma delas te chama a atenção… um mergulhador no meio de uma água esverdeada. Não há peixes, algas coloridas ou barulho. Tudo parece fazer silêncio. Exceto pelas bolhas que saem do seu respirador.

Glup.

– Ei?! – A mulher grita, estralando os dedos na sua cara. Por um segundo ela parece um daqueles peixes que inflam – qual é mesmo o nome deles? -, alguns segundos depois parece Salomão recitando mentalmente o que já escrevera: tudo é vaidade e aflição de espírito.




Hey, esse texto não é como os que costumo postar, relatos pessoais, crônicas e textos opinativos, esse texto é um conto. Ou seja:  eu não googlo coisas inapropriadas no horário do trabalho (quer dizer, alguns memes no horário de almoço quem nunca? hehe). Isso dito, seguimos o esquema de sempre: você pode me encontrar através do email (nataniacarvalho@gmail.com), da página do blog no Facebook, ou do meu Instagram =D

empatia

Empatia tem gosto de pão quentinho na chapa

{Para ouvir enquanto lê}

Eu imagino Cristo tomando os nossos pecados, dores e enfermidades na cruz.

Seu rosto se contorce ao presenciar um dos piores dia da minha vida. Ele engole seco. Eu estou sentada na cama. Minha versão de oito anos, sete talvez… Ele sente o buraco azul se abrindo em meu peito. Ele começa a respirar fundo. Como eu fiz.

Ele sente os abusos domésticos a que centenas de brasileiras são submetidas. O marido de uma das suas mulheres se aproxima e o tapa ressoa em sua face. Jesus se assusta. Se apavora.

Sua pele queima por doenças ainda desconhecidas em seu tempo. Seu coração se despedaça e o braço adormece, era o infarto do meu pai ali. Aquele homem que comia peixes, pão e um bolo feito de azeite infarta como um de nós que devoramos um hambúrguer por semana.

Ele se sente sozinho. Com medo. Por que nós nos sentimos sozinhos e com medo. Ele nos conhece por dentro. Ele divide nosso fígado e nossos sentimentos. E, enquanto isso, sangra sobre um pedaço de madeira.

Jesus é a própria figura da empatia.

Mas nós? Nós não. Nós julgamos as pessoas por relatos. Nós preferimos ter razão. Tripudiar sobre o sofrimento do outro.

E Ele ressuscitou, brilhando pela glória de Seu pai, e nos chamou para fazer coisas maiores, mas nós julgamos. E fazemos textos imensos em nossas redes sociais cheios de ódio.

“A mão do Senhor vai pesar sobre essa geração”, eles escrevem na rede social azul.

Mas eu peço desesperadamente que não. Senhor, não pese sua mão sobre nós.

Eu tento imagina-lo em cima de uma rocha falando sobre amor, e eu me derreto. Choro feito criança. Fico boba. Eu me imagino ao lado da pedra e eu quero ser como Ele, eu quero amar, eu quero ter compaixão, eu quero escrever textos que falem do seu amor.

A justiça de Deus existe. É claro que sim. Mas há em nós alguma justiça ou temos escondido nossas vinganças atrás de passagens soltas das Escrituras?

É mais fácil julgar do que se compadecer. A compaixão produz em nós a pequena grande dor de se importar, e se importar, nos dias de hoje, é uma gota de mirra, um pão quentinho na chapa. Compadecer-se significa parar de olhar para você e sentir o que o outro está sentindo, não o que você acha que ele deveria estar sentindo. Compaixão é uma obrigação cristã, mas nunca uma obrigação religiosa.

Jesus teve compaixão deles e tocou nos olhos deles. Imediatamente eles recuperaram a visão e o seguiram.  Mateus 20:34

Tenho compaixão desta multidão; já faz três dias que eles estão comigo e nada têm para comer. Marcos 8:2

Ao vê-la, o Senhor se compadeceu dela e disse: “Não chore”. Lucas 7:13

Quando Jesus saiu do barco e viu tão grande multidão, teve compaixão deles e curou os seus doentes. Mateus 14:14

36 coisas que você não queria saber (ou: senta que lá vem modjenha)

Um amigo me marcou em uma daquelas publicações do Facebook em que você tem que contar uma série de fatos sobre você. Ele me pediu 36 fatos. 36 FATOS MINHA GENTE. Eu tenho achado super interessante ler a lista das pessoas no feed, mas achei que, talvez, 36 fosse demais para o Facebook, então estou postando por aqui as coisas que você não me perguntou e não queria saber, mas: toma que o filho é teu.

{Para ouvir enquanto lê}

1 – Eu deveria estar fazendo outra coisa e não esta lista. Eu, geralmente, sempre deveria estar fazendo outra coisa.

2 – Eu pego mais trabalho do que consigo terminar durante o dia, o que me faz ficar acordada horas nas madrugadas. Algo não resolvido de provar valor com afazeres. Quem sabe até os 80 anos alguma terapia resolva.

3 – Quando eu descobri que as pessoas inventavam histórias e eram pagas para deixarem que elas fossem colocadas em papel polen soft amarelado, eu pensei que estava sonhando. Para mim esse era e é o melhor trabalho do mundo. A coisa que eu mais queria nessa vida de meu Deus era ser escritora de fantasia, como não tenho escrito tanto, e publicado muito menos, cultivei um universo paralelo em que já estou no décimo quinto livro publicado e discutindo com a editora a capa do décimo sexto (e a gente pode fingir que conhece Christopher Paolini, que mal tem, né, migos?).

4 – Porque eu queria muito ser paga para escrever (e porque eu acreditava que um texto podia mudar a realidade de alguém), escolhi cursar jornalismo. Entrei na Universidade aos 16 anos e hoje tomaria uma decisão diferente. Depois de uma editoria de cidades, versão online, durante a madrugada, eu escrevi mais textos de estupro do que você pode imaginar (eu escrevi um pouco sobre essa fase aqui). Nem um deles mudou a realidade de ninguém, exceto a minha, quando segurava o choro no trabalho pensando no tipo de mundo ferrado em que a gente vive. Entendi que queria ser paga para escrever, mas não daquele jeito. Não queria ser ~~ imparcial~~ e dar notícias caça clique… Não queria fazer transcrições, assessorar políticos que critico, nunca tive ego para a TV. Eu queria sentar e escrever, ter a sensação boa de terminar uma página, de adicionar um neologismo no word, nunca passou pela minha cabeça responder 675 vezes que eu não queria estar no lugar do William Bonner daqui a alguns anos (William Shakespeare tamos aceitando hehe).

5 – Desde que terminei a faculdade já fui jornalista de impresso, do online, assessora de imprensa, revisora, corretora de redação, professora de redação e tradutora.

6 – Passei em uma nova faculdade. Vamos acompanhar.

7 – Eu não sou uma pessoa romântica. Nunca idealizei dia de casamento nem quando era pequena e não consigo entender quem procura esposa/marido quando não tem nem namorado. Parece muita pressão. A vida tem muita coisa para ficar focado tão seriamente em alguém que nem faz parte dela, QUE NEM EXISTE… Mas se você é assim, juro que vou tentar não julgar.

8 – Eu não gosto de julgamentos (sentença acima retomada com sucesso). Eu prefiro entender os porquês. Eu acho que se olharmos para dentro vamos ver mais coisas que gostaríamos de mudar do que manter, quase todo mundo é assim, porque nós esperamos que os outros sejam melhores que nós?

9 – Eu mando áudio no whatsapp. Desculpa, não consigo evitar.

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10 – Eu sou enlouquecida pelos meus amigos. Acho que não há na terra um Natal como o nosso.

11 – No ano que vem comemorarei 10 anos dividindo minha vida com uma das melhores pessoas do sistema solar e agregados. Fico besta de tão agradecida por você existir, Dany.

12 – Eu amo Harry e a JK como se fossem parentes da família. Releio alguns livros da série todos os anos e dou de presente o primeiro deles para todos os bebês das minhas amigas, quase sempre com a mesma dedicatória: Você ainda não me conhece, mas eu sou a tia que te deu uma varinha em algum Natal. Não fure ninguém com ela.

13 – Desde pequena penso “e se eu não fosse eu?”. Não dá para explicar, mas isso sempre volta para minha cabeça.

14 – Quando eu era criança, eu morria de medo de que meus pais morressem. Minha mãe me disse que só ia morrer depois dos 40, isso para uma menina de 6 anos era uma eternidade. Porém, quando minha mãe fez 40, eu lembrei disso. Do mais absoluto nada. Foi uma das coisas mais estranhas da minha vida estranha (minha mãe já passou dos 40 e segue firme, forte e lindja😀 ).

15 – Eu não faço absolutamente nada sem música. Eu preciso de música para estudar, trabalhar, fazer faxina e tomar banho. Quando eu esqueço meus fones de ouvido em casa, por dentro quero estar morta.

16 – Porque eu ouço muita música, eu não sei dizer qual é a melhor música que já ouvi . Mas posso dizer com toda certeza que se eu tivesse que ouvir apenas uma música pelo resto da minha vida seria Clair de Lune. Acho que Debussy conseguiu fazer com que a música clássica habitasse, também, o ambiente popular, aprendi ouvir os compositores clássicos através dele, e poucas coisas me fazem mais feliz do que ouvi-los no toca disco.

17 – Eu amo vinis. Você quer ganhar uma vida de admiração? Me dê vinis de blues.

18 – Acho que Billie Holiday, Bessie Smith e Bey (oncé) deveriam me ter como melhor amiga – hehe.

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Pra por no porta retrato <3

19 – Odeio arrogância. Prefiro fingir que não sei as coisas do que parecer que desejo sobressair sobre alguém.

20 – Ás vezes, tudo o que eu preciso é ser um anão no RPG e dar um monte de porrada sem sentido nenhum.

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Vez ou outra, a gente só tem que começar uma briga por nenhuma razão aparente em uma taverna

21 – Eu já tive um clube de Star Wars na escola. A gente não fazia nada, só falava sobre como gostávamos de Star Wars e construíamos, ocasionalmente, objetos da franquia com isopor. Um idiota quebrou minha Estrela da Morte e até hoje espero que o universo o puna por isso. É sério.

22 – Eu me pego pensando sempre: como alguém compõe clássicos? Como alguém senta e compõe Lacrimosa, Something ou 2 e 2?

23 – Música brasileira é coisa que vem da alma. Se você não gosta de rir num sambinha num domingo de tarde, você não achou o sambinha certo. Vale para todos os nossos ritmos e letras, não tem nada como a gente falando da gente mesmo. É extremamente poderoso.

24 – A política brasileira me faz chorar. De verdade. Porque eu vejo que não vai melhorar e que ninguém realmente se importa com ninguém. Só em manter seus traseiros em Brasília ou seu ponto de vista em casa. Os políticos fazem arranjos para ficarem, o povo vota em Bolsonaros e Delegados Waldir…

25 – Eu acredito piamente na igualdade de direito das mulheres. Luto por ela nos protestos, nas redes sociais, nas conversas de padaria. Quem não luta comigo, não pode ficar comigo. Hoje em dia, eu não aceito amizades misóginas nem em forma de piadinhas.

26 – Eu queria ler todos os livros do mundo. Ou, pelo menos, todos os que compro.

27 – Eu tenho um grupo para falar de séries, que é para você entender o nível do meu vício (e dos meus comparsas de crime).

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Qualquer semelhança…

28 – Eu quase morri quando soube que Gilmore Girls ia voltar. A Lorelai é praticamente meu alter ego (só não tenho uma Rory).

29 – Machuca um cachorro na minha frente procê ver!

30 – Tenho 569 tatuagens salvas em pastas e 0 em mim, ainda.

31 –  Eu amo Beatles. O show do Paul foi um dos melhores que já fui e o meu fab four preferido é o George Harrison (e ele já apareceu no blog). A carreira solo dele é de dar orgulho nesse coração de fangirl.

32 – Tenho muita admiração por quem desenha e fotografa bem. Eu adoro tirar fotos de velhinhos, mas Sebastião Salgado sentiria vergonha de mim.

33 – Queria morrer sabendo falar gazilhões de línguas.

34 –  99% jeans e blusa, mas aquele 1% de boho-witch-pitada-de-Phoebe-tia-louca-do-bairro-style (o que é = a ouvir “nossa, mas você não está com calor?”).

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Não, porque minha alma ficou um pouco mais fria com esse comentário hehehe

35 – Às vezes meu senso de humor é um pouco próprio. Achar amigos que compartilhem dele é para toda a vida.

36 – Eu quero aprender a amar as pessoas de coração inteiro. Sempre. E aprender o que puder enquanto estiver por aqui. Porque se tem uma coisa que não quero é saber o mesmo que sabia há um ano atrás.



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15 de junho (ou: obrigada por não ser um raio, Deus)

{para ouvir enquanto lê}

Eu estou acordada, olhando para você. Não sei mais chorar. Mas ainda estou aqui.

Está fazendo frio, Deus.

Penso em pegar uma outra blusa. Mas olho para você. Ainda estou aqui.

Eu não sei o que dizer. Não mais.

Mas

Ainda

Estou

Aqui.

 

Pois o pecado não os dominará, porque vocês não estão debaixo da Lei, mas debaixo da graça. E então? Vamos pecar porque não estamos debaixo da Lei, mas debaixo da graça? De maneira nenhuma! Não sabem que, quando vocês se oferecem a alguém para lhe obedecer como escravos, tornam-se escravos daquele a quem obedecem: escravos do pecado que leva à morte, ou da obediência que leva à justiça? Mas, graças a Deus, porque, embora vocês tenham sido escravos do pecado, passaram a obedecer de coração à forma de ensino que lhes foi transmitida. Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.
Romanos 6:14-18

Vamos orar? (um pouco diferente dessa vez:) )

Bem, na maioria dos posts eu oro por você, junto com você. Hoje, eu gostaria que você orasse por mim. Nas suas orações antes de dormir, ao acordar ou antes de comer batata frita no almoço. Que nossos corações estejam juntos.




 

ps: C., obrigada por tudo. Eu achei conforto no evangelho hoje. Justo hoje em que uma placa em neon, na minha testa, gritava: raios, por favor, caiam aqui, grata. Obrigada por me ensinar sobre graça. Obrigada por ser Tito (“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” Tito 2:11).

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Porque vocês andam culpando as viúvas e os órfãos?

{por favor ouça enquanto lê}

Deus não é Senhor das metades, das imperfeições e das injustiças.

Deus é inteiro, infinitamente maior do que o círculo que você desenhava com seu compasso nas aulas de geometria. Deus é perfeito, não há um vislumbre mau em sua personalidade, não há uma falha sequer em seu coração. Deus é justo e nas sua justiça não há áreas cinzas.

Eu tenho me lembrado dessas coisas nos últimos dias.

Inteiro.

Perfeito.

Justo.

Eu preciso me lembrar, porque acordo chorando pois uma menina foi estuprada por 30 homens e nós não estamos gritando isso como loucos em nossos púlpitos, em nossas células e círculos familiares.

Não há uma parte de mim que não queira gritar. Eu pareço feita de gritos, como se citoplasma não fosse mais necessário. Meus pulmões gritam, as células da minha pele do dedão berram, e por isso eu choro constantemente, porque eu não sei mais o que gritar.

Eu abro uma rede social qualquer e aqueles que deviam estar abraçando a vítima – alguém que poderia ser facilmente a viúva e o órfão das escrituras – estão medindo o vestido de uma menina e verificando se ela devia ser culpada ou não por trinta abusos.

“Mas você não sabe onde ela estava?”

“Mas não era ela que tinha um filho já?”

“Mas se ela tivesse na igreja nada disso teria acontecido”

E tudo o que eu quero fazer é gritar. Alto. Tudo o que eu queria fazer é parar de chorar. Mas a cada onze minutos, uma mulher é estuprada no Brasil.

O sentimento não passa. A indignação infla em mim, como uma maré permanente. E eu passo a orar por todas as mulheres que conheço. Eu passo a orar pela vida de uma menina que não conheço. Eu a vejo na rua e peço para que ela não seja estuprada naquele dia. E choro. Tanto que meu peito treme.

Porque a gente precisa de uma oração dessa?

Eu questiono porque muitos na igreja tem tanta dificuldade de amar, porque eles se agarram a religiosidades e são tão ressequidos? O Senhor não tem nos dado amor? O Senhor não tem nos dado misericórdias novas todos os dias? Quem somos nós para não amarmos alguém? Por acaso a cadeira de juiz foi designada a nós?  Mas eu nem sei porque eu estou escrevendo esse texto, porque assim que entrar no meu Facebook alguém de alguma denominação qualquer – e até da minha! – vai estar dizendo que “também, a mulher tem que se dar ao respeito”. E que respeito é esse?

Onze minutos.

Outro estupro.

Há algum anos eu entendi que o meu próximo era uma mulher. E eu vou lutar por ela como eu luto por mim. E isso tem significado colocar coisas de lado e ser vista, algumas vezes, com alguém que se estressa “por nada”. Isso significa falar de machismo dentro da igreja e receber olhares de “shhh”. Eu não vou parar de falar. Eu não vou parar de escrever. Eu não vou. Porque as mulheres não vão apanhar dentro das nossas igrejas. Porque as mulheres não irão ser estupradas em silêncio dentro de nossas igrejas. Elas não vão ter vergonha de nos pedirem ajuda. Eu sou a ajuda. Eu me disponibilizei como coração quente e braço firme para elas.

Você é a ajuda?

Que nós não culpemos a vítima. Que nós não coloquemos nossa religiosidade como uma máscara para disfarçar o fato de que muitos se acham mais santo e superiores e, por isso, talvez, achem que o outro “pediu”. Acredite, ninguém pede para ser estuprado.

Nos momentos em que estou mais desesperançosa – e desesperada – pela situação que as mulheres enfrentam no Brasil, eu tento reviver a história mais do que conhecida de João 8: a mulher adúltera. Eu olho para o Jesus que eu amo e sirvo e o desprendo de todos esses comentários maldosos, machistas e completamente sem compaixão. Meu legislador não levantaria pedra nenhuma contra aquela menina, mas falaria algo que deixaria todas as outra pedras no chão.

Jesus fez algo para que aquela mulher não fosse machucada. Eu quero fazer algo. Você quer?

O evangelho é tão maior que casas próprias e mensagens sobre casamento. O evangelho é sobre salvar a vida de alguém. O evangelho é sobre defender uma menina. O evangelho é sobre amar uma mulher.

Sei que a terra clama pelo sangue de cada uma de nós derramado injustamente, assim como clamou pelo de Abel (E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra Gênesis 4:10). Que nós também clamemos para aquele que é inteiro, perfeito e justo.

Eterno, traga justiça para as tuas mulheres.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
Mateus 5:6

Feliz Páscoa!

Imagino como é deitar o rosto no buraco de tuas mãos, porque sei que eu – campeã internacional do grupo das pessoas ferradas – te amo intensamente por ter sido TÃO tão perdoada.

Meu amor por você passa por esse imenso curso de me entender sem você e de odiar a minha versão que não está medindo a circunferência do espaço aberto pelos cravos. Meu amor por você tem o formato da tua cruz, porque sem ela eu não teria conhecido o cara mais amoroso de todos os planetas e galáxias que a gente sequer descobriu, capaz de perdoar aquilo que os que mais nos amam chamam de inconcebível. A cruz me deu um companheiro. Um amigo que nunca mentiu – as coisas não vão ser como você quer, ele vive dizendo -, mas que nunca tirou suas mãos furadas das minhas.

Eu queria coexistir em milhões de universos paralelos – 1602 e MC2? – só para dizer, em várias existências, o quanto eu sou grata . Queria ter várias vozes, só para falar o seu nome. É estranho agradecer alguém por ter sofrido e morrido. Mas vá lá que o senhor é um pouco estranho mesmo, hehe. Obrigada, Jesus. Meu amigo está vivo.

Carta do dia 8 de março (ou: Para todos os sexistas da igreja)

{Para ouvir enquanto lê}

Caro sexista que faz piada sobre mulher e lavar louças nos encontros e retiros, que acha que a equivalência de direitos já existe na prática, que tem medo de discutir abuso, que não sabe o que sua filha já ouviu entre um ônibus e outro, que não faz nada em casa: você não tem ideia do que seja amor. E sem conhecer amor, você não pode conhecer a Cristo e sem conhecer a Cristo seu cristianismo é vazio. Freira sem oração.

Sim, você que acha que é o centro do mundo, você conhece tão pouco do evangelho… Jesus era aquele que dizia que o menor seria o maior. Jesus era aquele que não dividia mulheres entre santas e putas com um belo dedão na cara e um grito de “mas também, desse jeito, como você queria não ser estuprada?!”. Jesus derrubava pedras e egos para proteger as suas mulheres. E suas mulheres mal puderam esperar o sábado acabar para visitar o seu túmulo.

Mas sabe querido você, o evangelho é transformador, ele vira a gente de cabeça para baixo, nos faz melhores, mais amorosos, mais justos – o evangelho de verdade, eu digo -, então, ele pode te ensinar a respeitar as mulheres como Jesus as respeitava, ele pode te ensinar a amar sua esposa como a Palavra diz: como Cristo amava a Igreja. E caramba, como Jesus amava e ama a igreja… O evangelho pode te ensinar a não julgar para não ser julgado, a ouvir e a ser companheiro enquanto elas travam uma longa luta por direitos que, ainda hoje, são invisíveis. E quando você não entender algo, não dê um de discípulo desavisado – como aconteceu com a mulher de Betânia, que quebrou um perfume nos pés de Cristo. Porque Jesus sabe que somos determinadas, fortes, que invadimos reuniões e convenções sociais para quebrar nosso frasco de alabastro nos pés Daquele a quem mais amamos, e se você tentar desfocar nossas vitórias, Ele vai perguntar a mesma coisa que perguntou muitos – muitos! – anos atrás, em Mateus 26:10:

“Por que vocês estão perturbando essa mulher?”

Atenciosamente,

A mulher do seu lado em qualquer culto, que podia ser Débora, a adoradora dançante, que podia ser Maria Madalena, discípula presente, que podia ser Raabe, a prostituta que salvou a pele dos espias e futuros habitantes de Canaã, que podia ser Rute, aquela que abandonou seus costumes e conheceu a Deus, que podia ser Ester, aquela que tinha nome de planta e salvou o povo do Eterno, que podia ser Maria, aquela que foi escolhida como mãe de Jesus.  A mulher do seu lado em qualquer culto, que pode ser como qualquer outra da sua família.



 

Este texto não tem intenção de generalizar homens ou mulheres cristãs, mas de refletir o quanto da cultura sexista temos perpetuado em nossos templos. Que sejamos iguais em direitos e em amor, homens e mulheres. Feliz dia da mulher! (:

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Porque mantemos o assunto abuso longe de nossos púlpitos?

 

{Para ouvir enquanto lê}

Durante os últimos dois anos, Deus tem trazido até mim  pessoas que lutam contra pensamentos suicidas ou contra a depressão em geral. E o blog tem um papel importante nesse contato. As pessoas, muitas vezes, se sentem mais a vontade mandando emails do que contando esse tipo de coisa. É aquele momento em que os olhos e a fala – ambos se arrastando para o chão – não conseguem acompanhar ou explicar alguns dos sentimentos mais profundos que temos e a escrita, ao contrário, parece ter um caminho direto e conhecido para aquilo que mais tememos dizer.

Sempre que um email desse tipo chega,  eu – que  não sou terapeuta e não tenho pretensão de agir como uma -oro e falo de um lugar muito pessoal.

Ao longo do tempo, percebi que a maioria dos autores dos emails eram jovens que já conheciam a Cristo há certo tempo e os conflitos, geralmente, nasciam de uma situação abusiva. E eu fiquei me perguntando: como temos ajudado essas pessoas dentro de nossas igrejas?

Muitas vezes, nós não temos.

Minha maior ajuda veio através de uma escritora cristã chamada Christa Black, que descobri através de uma aula da plataforma WorshipU, não veio do púlpito. E saber disso me deixou com raiva. O púlpito aqui é, claro, apenas uma metáfora para a igreja, que nada mais é do que as pessoas que caminham para o alvo junto com você.

– Deus, como nós não temos falado sobre abusos na igreja?!

Então, decidi escrever os que você está lendo. Porque o evangelho necessita que você aprenda que é amável e o abuso quebra essa ponte. Muitos dos emails traziam a mesma carga de sentimentos: “eu me sinto imperdoável, eu não posso ser amado”. A essência do evangelho é que alguém te amou tanto que veio, como uma espécie de segundo Adão, construir as pontes que o pecado abriu. No entanto, lá no fundo, quando nos sentimos deprimidos, ou quando não conseguimos nos sobrepujar sobre situações passadas, não conseguimos sentir esse amor e nos tornamos como cristãos que tem enormes buracos no peito e que se perguntam: Deus não deveria preencher exatamente essa parte do meu coração?

Falar sobre abuso é ensinar sobre culpa e vergonha e sobre como se livrar delas.

Veja, a vergonha é um motivador horrível para a liberdade, e não é a convicção do Espírito Santo. Lembre-se, é a bondade de Deus que nos leva ao arrependimento, não nossos próprias açoitamentos, mesmo se nós merecemos ser punidos. (Romanos 2: 4)

A tristeza segundo Deus produz arrependimento … não vergonha. Deus não recebe nenhuma glória quando você se mutila, mesmo se você realmente fez algo que te machuca, ou mesmo machuca aqueles que você ama. (Não entenda como permissão para o pecado … ..a Bíblia é muito clara sobre isso. Mas a Bíblia também é muito clara sobre a vergonha … e não temos permissão para viver na vergonha como crentes).
Vergonha afasta … ..mas amor aproxima.

Christa Black (tradução livre)

Nosso papel como igreja é ajudar nossos irmãos a ouvirem do Eterno coisas que quebrem este padrão de vergonha e culpa em suas vidas. Em seu blog, Christa conta que ia para o trono de Deus com profunda vergonha, esperando que Ele a recebesse como um juiz pronto para julgá-la da pior maneira possível: com as palavras que ela julgava a si mesmo. No entanto, “com lágrimas escorrendo pelo meu rosto … eu iria começar a ouvir o veredito do juiz: Justa. Piedosa. Sem culpa. Irrepreensível. Querida. AMADA. VIVA. Remida. LIVRE.”

Nosso papel como igreja é ensinar que uma mulher nunca terá culpa de ser abusada sexualmente, não importa a roupa que esteja usando, que um filho nunca será o responsável por ter sido espancado, que uma esposa não deve EM HIPÓTESE NENHUMA ser culpada por um casamento abusivo, e mais: ser aprisionada a ele, antes deve fazer cumprir o direito de denunciar seu agressor.

Nosso papel como igreja é ensinar que namoros abusivos ( em todas as suas formas: seja aqueles que te inferiorizam, que te fazem sentir louca, te fazem trocar de roupa, te fazem sentir que você não deve terminar, porque nunca arrumaria coisa melhor olha-só-pra-você, ou te obrigam a transar) e chefes que abusam moralmente de seus empregados não tomarão lugar em nosso meio! Nosso papel como igreja é tomar a mão de nossos irmãos e ajudá-los a irem a delegacia, é abraçá-los depois de uma sessão com um terapeuta que possa acompanhá-lo, é não deixar o responsável impune e, ainda assim,  ensinar sobre o perdão, é dar casa e leite quente quando houver medo de dormir sozinho.

Nosso papel como igreja é amar.  O mais incondicional amor que conseguimos oferecer. E o mais importante de tudo: nosso papel não é julgar a dor, a doença emocional ou os impulsos depressivos de nossos irmãos, se você não consegue apoiá-los, se torne, primeiro, igreja.

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Seja constante o amor fraternal.
Não se esqueçam da hospitalidade; foi praticando-a que, sem o saber alguns acolheram anjos.
Lembrem-se dos que estão na prisão, como se aprisionados com eles; dos que estão sendo maltratados, como se fossem vocês mesmos que o estivessem sofrendo no corpo.
Hebreus 13:1-3

 



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Michelangelo e o espaço irritante entre Adão e Deus (ou: Até mais, Goiânia, e obrigada pelos peixes)

{Para ouvir enquanto lê}

Esses tempos li em algum lugar que o amor só é possível pelo livre-arbítrio. Mas, calma, vamos segurar isso por mais um tempo e (re)começar esse texto de uma nova forma.

O Recomeço:

Quando meus pais contaram que foram chamados para assumirem um núcleo de nossa igreja em outra cidade, nós estávamos na cozinha. Eu não lembro o que havíamos feito para o jantar, mas lembro da cara dos meus irmãos. Eu ouvi e, sem saber o que dizer, fui terminar de ler alguma coisa no computador.

– O que o Senhor quer, Deus? – Eu continuei me perguntando.

Eu me senti diferente da primeira mudança que fizemos por causa da igreja, eu não estava preocupada com meus amigos, com quem estava deixando por aqui, mas com o que era ou não a vontade de Deus para mim, como indivíduo, e não para mim, como membro da minha família.

Aquilo era o que Deus queria que EU fizesse?

Eu resolvi não contar para ninguém, inicialmente, e passei a orar sobre isso de forma insistente (desculpe, Deus hehe).

No meio das orações, o meu coração se encheu de gratidão por tudo o que o Eterno havia nos dado aqui, em Goiânia, como família, e como ministério pessoal. Eu me senti agradecida por ter aprendido a dividir meus sonhos no Reino – Daniel, te amo, migue -, aprendi a ser resiliente, aprendi a amar a casa de Deus mesmo ficando até às três da madrugada tentando colar adesivos no espelho. Eu me senti extremamente grata pela minha célula e minha liderança, capaz de entender o que meu coração ansiava em Deus e me encher de livros e ministrações que me fizessem compreender o que eu não conseguia. Grata por Deus ter me ajudado a entender quem eu sou Nele. E, principalmente, quem eu não sou e não tenho obrigação de ser.

Gratidão, mas não havia respostas sobre a nova cidade.

Mas em um culto, eu me vi revisando tudo o que Deus havia me falado nos últimos tempos, todas as canções que Ele e eu cantávamos enquanto lavávamos vasilha… E… tcharam, ali estava: “o novo de Deus vem”.

Senti suas mãos perto das minhas.

– Deus, mas o novo pode ser um monte de coisas, não só realmente mudar de cidade – retruquei mentalmente.

– Quantas vezes você cantou/escreveu essas coisas nos últimos meses?

Muitas.

Mesmo.

Eu pensei em ignorar o que estava acontecendo dentro da minha cabeça, mas eu sabia que Deus não estava me deixando fazer algo que não fosse incentivado por Ele. Se esse era o meu medo – o caminho da permissividade de Deus e não o da vontade líquida, linda e perfeita do Senhor – eu não precisava temer.

E é aqui que eu volto para o início do texto:

O livre-arbítrio nos faz livre para escolhermos o nosso caminho terreno. Podemos escolher nossas profissões e nosso estilo de vida e, na maioria das vezes, Deus irá permitir que nos o façamos, mesmo que aquilo não seja O plano que ele construiu para nós. Muitos de nós realmente vive assim. E não há nada de errado/pecaminoso/búuuu com isso, mas sinto que não alcançar o plano completo de Deus em nossas vidas nos faz incompletos de uma forma incômoda, como se você precisasse mudar ou conseguir algo grandioso e não conseguisse tocá-la. Como se vivêssemos no eterno espaço entre o dedo de Adão e o dedo de Deus na pintura de Michelangelo.

Contudo, porque eu tenho o livre-arbítrio, eu posso escolher  ouvi-Lo, e amar a sua vontade. Mesmo quando ela não se parece com os meus planos iniciais. Eu posso amar a igreja mais do que eu pensava que poderia.

E entendendo isso, assim como o maravilhoso e TÃO assustador fato de que Deus tem prazer de ir nos ensinando sua vontade ao longo do caminho e não antes de tudo, eu convido vocês que me acompanham por aqui para mudar de endereço comigo – as caixas da mudança estão em TODO lugar hehe – e de aventura, e aprender a amar o novo de Deus, pois como tudo o que Ele faz será perfeito (e mais fresquinho, já que dizem que a cidade é mais fria do que Goiânia Mil Grau).

Deus não é injusto; ele não se esquecerá do trabalho de vocês e do amor que demonstraram por ele, pois ajudaram os santos e continuam a ajudá-los.
Queremos que cada um de vocês mostre essa mesma prontidão até o fim, para que tenham a plena certeza da esperança,
de modo que vocês não se tornem negligentes, mas imitem aqueles que, por meio da fé e da paciência, recebem a herança prometida.
Hebreus 6:10-12

 

Vamos orar comigo?

Deus, que nós não vivamos algo senão sua perfeita vontade. Confia a nós os seus planos. Leva-nos para o exato lugar em que podemos ser como lamparinas sobre as mesas. Nós te amamos e queremos aprender a te amar tanto – tanto! – que o Senhor pergunte sem pestanejar: Você me ama? Apascenta as minhas ovelhas. Nós oramos no nome do teu filho, Jesus, amém.

 



Esquema de sempre: você pode me encontrar através do email (nataniacarvalho@gmail.com), da página do blog no Facebook, ou no meu Instagram =D