Ode aos amigos e suas Sessions

{Para ouvir enquanto lê}

Esses dias, uma  amiga e eu estávamos conversando sobre o que é realmente ser cristão – ela católica, eu evangélica- em um mundo pronto para aceitar todo o bem, mas ligeiro em recusar o compromisso. Nós chegamos a uma conclusão: o evangelho não é fácil, e quando te vendem um que só possui placas de neon atrativas, alguma coisa está errada. A Bíblia nunca foi de letras miúdas no fim do contrato, ela sempre foi muito clara: compromissos te exigem algo.

Alguns dias, o evangelho exige todo o domínio próprio que há em mim. Outros, ele exige que eu encontre uma escada e entenda a situação de um lugar mais alto. Todos os dias ele me pede para que eu me coloque no lugar do outro e que nunca me esqueça das leis de Deus.

O evangelho é uma caminhada de sempre se certificar de que sua lamparina ainda tem óleo. É uma caminhada de não se esquecer que há uma lamparina nesse mundo de tantas ocupações e crises.

Eu sei que esse não é um começo de texto muito atrativo, mas precisamos parar de nos esconder das coisas. A vida não é editável. A gente passa por todos os problemas de se comprometer profundamente com o Reino acordado, sem poder cortar nenhum deles ou adiantar suas velocidades. Mas você sobrevive, porque sua lamparina está acesa. As pessoas tem medo de falar sobre essa parte, medo de viver essa parte. Contudo, é necessário que falemos, porque o evangelho não é uma igreja de atividades, ele é força para amar a Jesus acima de tudo. E acima de tudo envolve muita coisa.

Quatro parágrafos apavorantes? Não, eles se resumem a uma só pessoa: Espírito Santo. É por meio dele que tudo é mais do que palatável,  tudo é bom! Olhar para Ele faz tudo fazer sentido. Senti-lo é a certeza de que o mundo pode passar  – inclusive passar sobre você -, mas Ele fica. Ele é casa. E a sensação de pertencer ao Espírito faz qualquer coisa valer a pena. Nada é como quando Ele se choca sobre nossos peitos. Nada. Nem a maior alegria. Nem a melhor universidade. Nem o melhor emprego. Nem a pior tristeza. É inexplicável. Não há metáforas. Não há poemas. Não há amor como esse. Não há abraço como o Dele. Não há beijo ou cheiro. Nada nunca poderá se comparar ao Espírito Santo de Deus.

E é por Ele que caminho com minha fé todos os dias. Bons ou ruins.

Este é um texto feito para agradecer aos amigos que me ajudaram a buscar o Espírito com suas reuniões de adoração. Atos 2 é real! Sim, real nos dias de hoje! Deus vai cuidar de vocês e dos seus corações sedentos. Sejam cheios Dele, como nós fomos em tantas e tantas Sessions.

orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos.
Tiago 5:16b


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Às vezes, o Eterno e eu simplesmente ficamos em silêncio

{Para ouvir enquanto lê}

Alguns dias, eu preciso pular a noite. Eu não posso dormir. Há um pacto entre o universo e alguma parte escura do meu cérebro e eu preciso ficar acordada. Nesses dias, eu me arrasto para a sacada do meu quarto sem janelas. Sento sobre a mureta feita para se recostar e balanço os pés pensando que se eu medisse uns cinco centímetros a mais, eu conseguiria encostá-los no telhado. Definitivamente conseguiria. É proibido dormir por alguma razão desconhecida e eu me encontro olhando para a pequena chaminé da churrasqueira, enquanto o cachorro do vizinho late os pulmões fora porque alguma coisa está fazendo barulho no meio da madrugada.

O mundo passa devagar. Ninguém está correndo para terminar nada urgente. Eu não estou corrigindo, lendo ou virando páginas. Eventualmente, até o cachorro vai dormir.

Silêncio.

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E é como eu imagino o fundo do mar. Como eu imagino a cabeça da pessoa mais emocionalmente estável do mundo. É como eu imagino o paraíso. O livro depois de Apocalipse que nós nunca ganhamos é uma série de pessoas se sentindo em cima dos telhados das próprias casas, totalmente em silêncio. E antes que eu continue imaginando mais coisas heréticas eu digo oi para Ele. Nós sabemos que ambos existimos ali. No frio de uma terça, quarta, sexta, domingo, vai saber… Os dois com as pernas geladas, porque a mureta é coberta por mármore. Os dois quietos como um casal de velhos que se conhecem em seus grunhidos e palavras deixaram de ser necessárias há algumas décadas.

Ali, com a calça do pijama e minha blusa do superman favorita, eu decido ser um pedaço do universo, que tanto culpo pelas noites da sacada, e começo a respirar no ritmo da rotação da terra. Ele está ali, respirando na velocidade da criação das galáxias, e nós, juntos, respiramos em silêncio. Completamente em silêncio no mundo que jaz quebrado, mas que parece estranhamente calmo quando estamos juntos.


Leia também:

Conversas com meu Beatle favorito (ou: Todas as coisas deste mundo vão passar)


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Seríamos mais bonitos do que a NGC 2997 se não estivéssemos ocupados em retirar rins e intestinos

{Para ouvir enquanto lê}

Você está em frente ao espelho. Encarando os próprios olhos, enquanto as mãos retiram seus órgãos internos. Sua boca tenta balbuciar que o que está fazendo é certo, é maravilhoso, mas o seu rim, se contorcendo no chão do banheiro, discorda. Em poucos segundos ele não será mais capaz de regular a pressão sanguínea, mas não é necessário, a boca garante que não, porque o sangue já pinta o rejunte escuro dos azulejos. Os intestinos tentam se prender ao estômago, mas logo eles caem no chão fazendo o barulho de um balão cheio de água quicando ao ser derrubado por uma criança, em algum quintal do mundo.  

Para boca, aquilo era necessário. 

Era?

Ela não pode mais dizer nada. Sua cor mudara e os músculos ao seu redor não conseguem mais fazer seu trabalho. Logo ela está no chão junto a todo o resto do corpo. 

Isso parece absurdo. Tão absurdo quanto alguém que tenta se matar segurando a respiração, esquecendo-se de que o sistema autônomo existe.

O corpo tenta se matar. O corpo luta para sobreviver.

Assim, pois, há muitos membros, mas um corpo.
E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós.
1 Coríntios 12:20,21

Isso somos nós. Um corpo cuja boca atravessa suas próprias tripas para tirar o rim. Uma boca que vive compartilhando nas redes sociais “desculpe se a igreja te feriu”, mas arranca o rim em nome de estar certo. E eu fico aqui, como o dedo mindinho, olhando a gente se destruir antes que Deus tenha a chance de nos espalhar por esse mundo, como milhares de frutos que tem um corpo para onde voltar.

Casa. A igreja é e sempre será casa. Mas nós temos que nos esforçar para sermos corpo, porque somos imperfeitos, porque somos orgulhosos, porque queremos ser melhores do que os outros, porque não somos piedosos, porque não enxergamos a totalidade da missão, porque somos soberbos, porque somos mentirosos, porque buscamos pouco a Deus.

Se deixássemos o papel de juízes, o papel que nunca foi designado a nós, e parássemos de julgar nossos irmãos, nossos pastores, e aqueles que não dividem nossa fé… Se deixássemos… Talvez nascesse em nós um amor genuíno – daquele que a gente deveria ver todo dia -, que não tenta provar a si, que não é místico e dependente do saciamento de nossas vontades, mas que é simplesmente puro: amor que vem de Deus para amá-Lo e para amar os homens.

Você não está mais em frente ao espelho. Está no chão. No seu banheiro. Reconhece-o pelo azulejo machado de um produto que deveria ter diluído, mas não achou que era preciso. Você se lembra do episódio dos órgãos. Mas consegue mexer a boca novamente. Logo a mão procura o buraco gigante que deveria haver em seu abdômen, mas não há nada ali, exceto pelas raízes de uma imensa árvore que destruiu seu telhado com o maior tronco que você já vira. Mão, boca, rins, olhos, intestino e tudo que há em você tenta encontrar a copa daquela árvore. E sim, vocês todos encontram. Ela é verde. Nada mais é tão verde quanto aquele verde. E entre tanto verde há frutos. Diferentes. Grandes. Macios. Cheirosos. Lindos.

Às vezes, a igreja parece apenas alguém deitado no banheiro. Relendo a vida. Perguntando se tudo vale a pena. Um corpo com um pedaço do intestino perto do box e as coronárias ao lado do vaso sanitário. Às vezes, a igreja esquece que quem criou o corpo pode concertá-lo. E é aqui, bem aqui, quando nos lembramos de tudo isso que o Eterno faz de nós a maior árvore do mundo, porque quando estamos juntos, quando somos um, somos a coisa mais bonita que já existiu e, em um universo onde existe a NGC 2997  ❤ , esse é, definitivamente, um elogio.

Que as bocas amem os rins e os rins sejam loucos pelas bocas.

e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la.
Mateus 16:18b



Leia também:

Eu preparo o chá que iremos tomar em nossa nova casa, Deus, quando finalmente o meu espírito vir o Seu



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Se eu pudesse fazer uma fanfic de Provérbios hoje, ela começaria assim:

{Para ouvir enquanto lê}

A gente não precisa de muita coisa na vida. As curtidas, a carreira irrepreensível e toda a aparência, no final das contas, não são nada. Passam. O vento sobre as folhas é mais duradouro. Porém, tudo o que a gente constrói por dentro fica. Todas as conversas com os amigos sobre universos paralelos, todas as viagens, todos os livros, todas as músicas do George, tudo o que o Eterno nos fala, todos os versículos que sabemos de cor e de corpo. Isso fica. A gente não precisa de muita coisa na vida. E para o que a gente não tem, Deus nos deu poesia e a quantidade exata de boa vontade – o limite do desistir e do continuar – para suportar. A vida é vivível. Avante, marujos.

 

Lucas 6 faz, finalmente, sentido

{Para ouvir enquanto lê}

Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses;

E dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir.
E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também.
E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam.
Lucas 6:29-32

Eu ainda estarei aqui. Em pé. Olhando para eles com os dois olhos abertos, tentando não fechar o coração. Não porque eu tenha alguma coisa boa em mim. Não mesmo. Por mim, eu viraria Carrie depois do baile. Eu seria Pedro com uma orelha na mão. Porém, por Ele, eu estarei aqui, com uma das bochechas vermelhas dos tapas religiosos que eles dão, mas ainda aqui. Dando algo que nem sabia que podia oferecer: amor para aqueles que não me amam. Estaca fincada nesta terra, esperando pacientemente pelo dia que eles abaixarão as tochas e deixarão de caçar Frankenstein com jargões do espírito, esperando pacientemente o dia que deixarão que o amor que tenho alimentado atravesse sua bolha lilás. E exploda. E inunde. E seja Cristo em nós nos fazendo família.



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“Não é do seu agrado trazer aflição e tristeza aos filhos dos homens”

Este texto nasceu ontem, enquanto eu corria de um possível assalto e me trancava dentro da igreja. Este texto nasceu em você, que quer desistir das coisas do Eterno e nem me conhece. 


{Para ouvir enquanto lê}

Eu penso muito em Paulo. No que a Bíblia não nos diz. No que ele pensou ou disse e não está anotado ali… E fico revisando suas viagens e suas cartas.

Eu amo aquele homem. Porque ele tem algo que eu não tenho e quero muito: força para amar a missão mais do que a própria vida. Paulo realmente entendeu – talvez como  George – que todas as coisas passariam. Ele via a eternidade e não se confundia com os anos na terra. Eu o amo porque ele mudou tanto que o mundo inteiro precisou chamá-lo de outro nome.

Algumas vezes, eu acordo e não há uma gotinha sequer de Paulo em meu corpo. Em um relance de mim há apenas a pergunta: porque, Deus, o Senhor nos destinou esta missão?

Mas antes mesmo de sair da cama, eu tento imaginar Paulo. Levantando há milhares de dias… Arrumando suas sandálias e saindo para pregar e ser preso. Imagino Paulo dentro de navios e se desdobrando para arrumar papel para suas cartas. Eu consigo ver, de forma clara em minha mente, sua silhueta diante de uma vela ao escrever  – provavelmente uma imagem de algum desenho que já vi… – e eu sei que o que Deus tem para nós não irá nos matar.

Porque não é do seu agrado trazer aflição e tristeza aos filhos dos homens. – Digo ao me sentar na cama.

Muitas vezes, ao final do dia, a gente precisa repetir esse quase mantra, ler um salmo, ouvir Bon Iver e orar. Não nessa ordem. Às vezes nessa ordem.

Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis.
Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade!
Digo a mim mesmo: A minha porção é o Senhor; portanto, nele porei a minha esperança.
O Senhor é bom para com aqueles cuja esperança está nele, para com aqueles que o buscam;
é bom esperar tranqüilo pela salvação do Senhor.
É bom que o homem suporte o jugo enquanto é jovem.
Leve-o sozinho e em silêncio, porque o Senhor o pôs sobre ele.
Ponha o seu rosto no pó; talvez ainda haja esperança.
Ofereça o rosto a quem o quer ferir, e engula a desonra.
Porque o Senhor não o desprezará para sempre.
Embora ele traga tristeza, mostrará compaixão, tão grande é o seu amor infalível.
Porque não é do seu agrado trazer aflição e tristeza aos filhos dos homens.
Lamentações 3:22-33

E a parte boa disso tudo é que a cada dia falta um dia a menos para que entendamos a vontade Dele. Menos um para gritarmos pelo universo e criarmos poeira nas partes desconhecidas dos planetas: boa, perfeita e agradável.

Deus, seja entronizado em nossas vidas com a Sua vontade. Que nossos olhos embaçados pela humanidade de nossas carnes, e incapazes de enxergarem os porquês, sejam propulsores da tua sabedoria sobre a terra.


Leia também:

Manhã



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3 anos depois: a quarta coisa favorita de V.

Este não é um texto que costumo publicar no blog, mas o V. nunca foi uma pessoa comum.


{V., para você ouvir enquanto lê}

Eu me apaixono pela história das pessoas. Talvez tenha sido essa uma das razões de ter feito meu primeiro curso. Mas eu não gosto das redações e das mesmas notícias de sempre. Eu gosto de guardar histórias e isso, amigos, não é um emprego em jornalismo.

Apesar de tudo, eu me lembrei de uma das minhas melhores experiências em jornalismo lendo um email hoje.

“Espero que você ainda tenha o mesmo email. Já faz algum tempo”

E todo o conteúdo da prova de histologia sumiu da minha frente. Eu saí correndo da biblioteca, coração no peito, batendo rápido, puxei o ar com força, me empurrando pela catraca. Sentei no chão, encarando um grafite roxo na parede. Não sabia se devia esperar para ler mais um pedacinho daquele email. Eu me lembrei da obsessão dele por limão e ri. Sozinha. No meio do campus. Feito um ponto sentada entre prédios altos e cercados de árvores.



Bem, você terá que fazer uma pausa neste texto e baixar outro para conhecer o dono do email que recebi. Na verdade, o prazer é totalmente seu, porque V. é uma pessoa incrível e me deixou escrever sobre ele em 2013:

As três coisas favoritas de um gigolô não pervertido



“Às vezes eu leio sua história sobre mim para saber que eu fiz alguma coisa no mundo”- o email continuava me costurando.

Eu segurei o choro. Juro que como não fazia há eras – glaciais. Mas agora, V., agora eu posso dizer tudo o que queria gritar para você mais cedo: escrever coisas tão pequenas sobre você me faz entender que eu existo no mundo, aquela ideia do ponto de novo, localizo meus dedos que escrevem para você. E aí parece que respiro. E existo. Porque você existe. Porque milhões de pessoas feito a gente insistem em respirar todos os dias. Nós nos levantamos. Sempre. Você me fez mais parecida com o que eu queria ser dentro de mim. Faz sentido? Espero que sim.

Em tempos de tanta gente brigando por nada, seu email é um refresco de verdades. Eu vou continuar torcendo por você. Aquecendo suas memórias. Esperando pelo dia que o sorvete da Egma estará em um copinho na nossa mão e guardanapos. Você já fez sim alguma coisa nesse mundo, meu amigo, deixe o mundo fazer alguma coisa por você em troca! Repito o que te escrevi no dia 06 de Fevereiro de 2013:

V., por me ensinar mais do que consegui escrever em meu relato acanhado, cheio de pequenos preconceitos velados ou não: obrigada. Aprendi que ter o número do celular preto e não do branco, fazer silêncio e saber o nome real das pessoas é mais bonito do que gaita. Obrigada por me deixar publicar a história, boa sorte em São Paulo. Que a nova cidade traga amor, daqueles que começam com “você vem sempre por aqui?”. Mas eu só estou sendo preconceituosa de novo, ou li contos de fadas demais… Que os romances russos nos curem. Aliás, que a gente fique forte o bastante para curarmos a nós mesmos.

Com amor,

Nat. 

 


PS: A quarta coisa favorita não é uma coisa e isso me deixa incrivelmente feliz. V., que o universo trabalhe por você e pela Heloísa. E de tempos em tempos me deixe escrever sobre você, ok? Assim a gente se certifica de que estamos vivos.